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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A FALÁCIA DA FALÊNCIA

     ESTE É O PRIMEIRO DE UMA SÉRIE DE TRÊS ARTIGOS QUE VISAM DENUNCIAR TRÊS GRANDES FARSAS INSTITUCIONAIS BRASILEIRAS. ESTAS FARSAS SÃO MONTADAS E DIVULGADAS POR POLÍTICOS E EMPRESÁRIOS, E IMEDIATAMENTE ENCAMPADAS POR ECONOMISTAS, JORNALISTAS E POR UMA SUPOSTA INTELECTUALIDADE. SÃO ELAS: A CRISE FINANCEIRA, A QUEBRA DA PREVIDÊNCIA, E A PRIVATIZAÇÃO.     

A falácia da falência
por Fernando Lomardo

     “Embora por motivos diferentes e por caminhos distintos, Brasil e Grécia chegaram ao mesmo ponto em que o tesouro quebra e falta dinheiro para tudo”.

     O cinismo da afirmação acima, expressa no Editorial do jornal O Globo de 13 de novembro de 2016, escancara a conivência da imprensa brasileira com um tipo de administração pública congenitamente ligada à mentira e ao banditismo.

     A Grécia tem lá seus problemas, sobre os quais podemos dizer, como um Donald Trump da vida, que não nos interessam. Quanto ao Brasil, que é problema nosso, todos sabemos (inclusive o jornal O Globo) que não quebrou: o Brasil foi, e continua sendo, roubado –  o que é bem diferente.

     O roubo não está apenas na corrupção, no desvio de dinheiro público, nos financiamentos ilegais de campanha, nem apenas nos subornos pagos por grandes empresas – subornos, no jargão da imprensa, infantilmente tratados como “propina”, como quem chama ânus de “bumbum”. Não. O roubo também está no custo espantoso de um legislativo impregnado pelo crime, onde apartamentos, ternos, viagens, sessões extras e salários injustificáveis são todos extorquidos do dinheiro do contribuinte - e isto se dá nas três esferas da administração pública: na municipal, na estadual e na federal. Bilhões de reais anualmente vão para o esgoto da sustentação de câmaras e assembléias cuja principal atividade consiste em legislar em causa própria e lesar o cidadão contribuinte.
  
     O roubo está na isenção fiscal concedida a quem deveria pagar mais imposto, ou seja, os grandes conglomerados empresariais, cujo faturamento é notoriamente assombroso e só mesmo o roubo justifica a insolvência financeira de alguns deles - assunto a que voltaremos no terceiro artigo da série, “A farsa da privatização”. 

     E o que vai acima não é tudo. O roubo de dinheiro público também está também em tecidos cancerosos como o fundo partidário, onde o cidadão é obrigado a pagar pela eleição de quem vai espoliá-lo, como se colocássemos um lauto prato de ração para a raposa que em seguida nos devastará o galinheiro.
  
     O roubo está na imoralidade de salários acima do teto da lei, recebidos principalmente por membros do poder judiciário, a maioria juízes e desembargadores; está no vilipêndio ao cidadão e contribuinte que dedicou sua vida útil ao país e hoje vê os abutres, representados pelo governo, pelo legislativo e pela imprensa, sobrevoarem sua aposentadoria, esperando para descartar o cidadão por inútil, como os Quatro Músicos de Bremen abandonados a partir da velhice.

     A imprensa parece realmente acreditar no discursinho criminoso da “falta de dinheiro” e seus filhotes: a previdência, os programas sociais, as verbas para Educação e Doença (não se pode usar o termo “saúde” no Brasil).  Se acredita de fato, é burra; se apenas finge acreditar, é conivente. 

     Mas essa conivência sofreu um duro golpe na semana que termina agora: após prenderem um dos maiores criminosos do país, o parisiense Sérgio Cabral, a Polícia Federal e o Ministério Público afirmaram textualmente, em sua entrevista coletiva de 17/11/2016, que a alegada falta de recursos hoje enfrentada pelo Estado do Rio de Janeiro é fruto de DESVIO DE DINHEIRO PÚBLICO (vale dizer, roubo), não de má administração. Simples assim. Sem a complexidade pretensiosa que os supostos analistas e especialistas da imprensa querem alegar em seus editoriais, colunas e programas de debates.

     A partir dessa constatação, que a cada dia se torna mais e mais cristalina e indiscutível, esperamos que os verdadeiros jornalistas e editores (pois sabemos que eles existem) reprogramem suas pautas e seus cadernos. De modo que as questões referentes à alegada “quebra do Tesouro” deixe de frequentar as páginas de política e economia e passe a frequentar as páginas policiais; e que as manchetes e chamadas sejam substituídas por um texto mais adequado: ao invés de “O PAÍS ESTÁ QUEBRADO”, a verdade: “O PAÍS ESTÁ SENDO ASSALTADO”. 

     Sabemos todos que uma imprensa livre é um dos pilares da democracia. Mas que ela seja realmente livre, não cooptada por grupos de interesses. E talvez não seja pedir demais um pouquinho de originalidade e inteligência, ao invés da mecânica repetição dos argumentos rotos e surrados de políticos e empresários.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

CUMPLICIDADE E CONIVÊNCIA: NO BRASIL, O CRIME COMPENSA

Lanço aqui o texto “Cumplicidade e conivência”, dramaturgia em 6 atos, com fundo moral. Acompanhem, @LFPezão e @STF_oficial.

1º. ato: governo do RJ decide que não vai mais pagar o funcionalismo. Põe a culpa na farsa da crise, quando todos sabem que o dinheiro foi roubado.

2°. ato: @LFPezao, o capacho inventado por @SergioCabralRJ, se licencia. Assume a Múmia do Faraó Quéops, quer dizer, Francisco Dornelles.

3°. ato: o motivo da manobra é óbvio: ninguém ataca um canceroso, nem um velho senil.

4°. ato: O ministro Lewandowski desmonta a farsa, impondo que o Estado do RJ cumpra seu dever até o 3° dia útil de cada mês.

5°. ato: mudança na chefia do @STF_oficial. @LFPezão sai da licença, sem traço de quimioterapia. Vai a @MichelTemer, que vai a Carmem Lúcia.

6º. ato: Carmem Lúcia rasga a Constituição, certo, @STF_oficial, e deixa o RJ pagar quando quiser. Moral: no Brasil, o crime compensa.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

COMENTÁRIO SOBRE A CONIVÊNCIA DE REINALDO AZEVEDO COM A CORRUPÇÃO BRASILEIRA

@reinaldoazevedo, agora que virou estrela da @RedeTV, quer se mostrar grande conhecedor da lei, cumpridor da lei e professor de leis.

@reinaldoazevedo tornou-se um comentarista impróprio, incongruente e pretensioso.

@reinaldoazevedo se acha no direito de criticar a Lava-Jato, Deltan Dallagnol, Sérgio Moro, a Polícia Federal. Tudo “em nome da lei”.

Nessa verborragia tendenciosa, @reinaldoazevedo torna-se um protetor de bandidos como Carlos Cachoeira, Renan Calheiros e Demóstenes Torres.

É obrigação nossa e de @reinaldoazevedo saber: leis são criadas por um Congresso, no nosso caso, especialista em legislar em causa própria.

Importante, @reinaldoazevedo, é defender alterações na lei, e mesmo sua infringência – se for para colocar bandidos e ladrões na cadeia.

Se leis não pudessem ser mudadas, @reinaldoazevedo, a ativista Rosa Parks nunca teria dado início à luta anti-racismo em Montgomery, EUA.

É com o apoio de gente como Reinaldo Azevedo que a corrupção grassa sem controle no país, há muitos anos.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

LEGÍTIMO PROTESTO




      PROPOSIÇÃO, SOB JUSTIFICADA REVOLTA, DA PROFESSORA E SERVIDORA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, ISABELLA THOMÉ    
 
     Acho essa caveirinha muito simpática, mas acho que podemos mais.
Convido amigos e colegas servidores, a entrar juntamente comigo, em uma ação civil pública contra o governo do Estado do Rio de Janeiro. Independentemente da Secretaria de Estado a qual pertença ou órgão. Vamos lá? Procura-se um advogado sério, de repente alguém da JUSBRASIL, que se disponha a trabalhar em condições especiais, visto que nem recebemos ainda.
As redes sociais são extremamente importantes, mas de uma certa maneira, nos dão a impressão que fazemos mais do que de fato fazemos.
Tenho 21 anos de Degase, somados a 10 anos de Município, e sinceramente, meus colegas da Educação das duas instâncias, sempre gostaram de reclamar em Conselhos de Classe, corredores e arredores, mas nos momentos de greve, iam aos poucos retornando, retornando, até que...The last ones eram os professores de História, Geografia, Educação Física e Educação Artística. The first ones a voltarem eram os de Ensino Fundamental. Isso, nos 10 anos de Município. Nos 21 de Degase, bem, aí professores são parte de um quadro complexo de funcionários e longe de serem a maioria.
     As cartilhas dos sindicatos são viciadas há muito, todos sabemos disso.
     Os funcionários do Judiciário gozam de privilégios.
     Os professores da rede são desvalorizados pelo governo, assim como os alunos.
     Parte considerável da população quer que seu filho esteja na escola e só.
O ensino é ruim, mas os professores fazem avaliações desta situação até a página 2, quando não terminam no segundo parágrafo.
Este modelo reinvidicatório está falido, pensemos em algo. Pode não ser a ação que sugiro, mas alguma coisa que saia da mesmice secular.


sábado, 21 de maio de 2016

SABEMOS TUDO QUE SE PASSA NESSE GRUPO



Fernando Lomardo

     Tocou o telefone. Minha mulher atendeu.
     “É pra você”. Atendi.
     “É o senhor Fernando Lomardo”?
     “Pois não”.
   “Aqui é da Fundação Biblioteca Nacional. Eu quero falar com o senhor sobre as declarações que o senhor tem feito no grupo digital de pareceristas”.
     “Quem está falando”?
     “Aqui é da FBN”.
     “O senhor é parecerista”?
     “Não”.
     “Então como o senhor teve acesso aos e-mails de um grupo fechado”?
     “Nós sabemos tudo o que se passa no grupo. Qualquer coisa que for falada sobre a FBN chega aqui. Temos controle total. E não gostamos do que o senhor anda falando no grupo”.

     O diálogo prosseguiu em tom progressivamente ríspido, principalmente da minha parte. Terminamos quando informei ao interlocutor que poderia processá-los criminalmente, a ele e à Fundação Biblioteca Nacional, por invasão de privacidade. Mas estou colocando o carro na frente dos bois.

     O Ministério da Cultura havia aberto, em julho de 2009, inscrições para pareceristas da Sefic (Secretaria Especial de Fomento e Incentivo à Cultura). Os membros selecionados atuariam, através do Salic (Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura, plataforma digital de inscrição e avaliação de projetos culturais), na emissão de pareceres técnicos para projetos culturais que reivindicavam isenção fiscal no âmbito da Lei 8.313/91, popularmente conhecida como Lei Rouanet. Minha inscrição foi aprovada para as áreas de Artes Cênicas, Música e Eventos Literários, o que me levaria a atuar sob coordenação de duas das chamadas Entidades Vinculadas do Ministério da Cultura: a Funarte (Fundação Nacional de Artes) e a FBN (Fundação Biblioteca Nacional).

     Desde o início dos trabalhos nós, os cerca de 400 pareceristas aprovados no processo, criamos um grupo de mensagens eletrônicas na internet, de modo a trocarmos informações e dúvidas, ajudando-nos uns aos outros, tanto nos aspectos técnicos da legislação quanto na utilização da própria plataforma virtual recém-criada, já que o treinamento que nos havia sido garantido pelo edital absolutamente não aconteceu, numa das ocorrências mais tristemente amadorísticas de que já tive a infelicidade de participar.

     Voltarei a este treinamento em artigo posterior. Aqui, estou dando um rápido histórico dos fatos que antecederam o telefonema que abre esse artigo. Como a sucessão de erros praticada pela Sefic e pelas vinculadas, em curto espaço de tempo, superava as expectativas mais pessimistas, muitos de nós começaram a trocar observações sobre essas falhas no grupo digital. Tal grupo, por razões óbvias, era evidentemente fechado – só os pareceristas faziam parte. Era necessária a autorização da moderadora do grupo para novas adesões. Isso visava preservar inclusive o sigilo do qual se recobrem os projetos em avaliação. Era portanto inaceitável que qualquer pessoa que não fizesse parte do grupo tivesse acesso às conversas. Um funcionário da FBN, que não fosse parecerista, não poderia ter acesso às informações ali trocadas. A conclusão era inevitável: alguém do grupo remetera mensagens privadas à FBN.

     A conversa citada acima não teve maiores consequências. Não processei os “invasores” e não voltei a receber qualquer contato ou reclamação dos mesmos. Mas essa foi a primeira demonstração pessoal que tive (e na época não liguei os pontos) de um fato que se tornou cada vez mais evidente e entranhado na administração pública brasileira, e que hoje apresenta sua salgadíssima e danosa conta: o aparelhamento, pelo partido do governo, das instituições públicas, através não só de cabides de empregos, mas de arapongas que vigiam tudo e todos na intenção de preservar a “democracia” – uma democracia bem ao estilo de Millôr Fernandes em sua clássica frase: ‘DEMOCRACIA É QUANDO EU MANDO EM VOCÊ; DITADURA É QUANDO VOCÊ MANDA EM MIM”.

     Fiquei cerca de dois anos como parecerista do MinC. Em todo esse período, não avaliei mais do que uns 20 projetos, até ser colocado na geladeira pelo diretor da Sefic, interpelado diretamente por mim após trabalharmos cinco meses sem receber um centavo dos valores previstos em contrato. Nesses dois anos, presenciei coisas progressivamente estarrecedoras, desde o “treinamento” a que já me referi até a ausência de resposta a pedidos de informação enviados aos responsáveis pelo sistema; desde a espionagem aqui relatada até as diversas falhas no funcionamento da plataforma; desde a ausência de recebimento pecuniário, a que já me referi, até a perplexidade ao constatar que não é absolutamente necessário nenhum conhecimento técnico para ser parecerista de projetos culturais do MinC: simplesmente seu conhecimento técnico não é exigido.


     Todos esses fatos, entre outros, serão relatados, da forma mais detalhada que meu dossiê e minha memória me permitirem, numa série de artigos que publicarei aqui a partir de hoje. Talvez esses textos possam ajudar, minimamente que seja, a formular algumas questões sobre Política Cultural no Brasil, num momento em que a histeria tomou conta de uma classe artística que até agora não tem conseguido demonstrar, em primeiro lugar, o que de fato espera do poder público em termos de Políticas Culturais; e em segundo lugar, principalmente, por quê apoia uma proposta política que, em 13 anos, se pautou exclusivamente pelo privilégio, pela dissimulação e pela mentira.

segunda-feira, 14 de março de 2016

MILHÕES NAS RUAS NO GRANDE DIA

por Fernando Lomardo

     De nada adiantou o mais novo membro do PT, o ministro Marco Aurélio Melo, tentar amedrontar o contribuinte com sua empolada e ridícula declaração de que “temia um cadáver” no 13 de Março. Muito menos a cara de playboyzinho irritado de Lula querendo convocar meia dúzia de desocupados a enfrentar os protestos do Grande Dia. Tampouco as postagens, nas redes sociais, de cinco ou seis onipotentes desinformados, enumerando “porque não vou” – como se eles fizessem alguma diferença. Não adiantou nada. O povo, verdadeiro dono do país, o verdadeiro povo, o cidadão que sustenta o Tesouro Nacional assaltado pelo PT e coligados, o povo riu do tolo ministro, peidou para a cara do Lula, bloqueou os idiotas no facebook e entupiu as ruas com milhões, milhões, milhões de pessoas que exigem o Brasil de volta. Não houve um único, isolado, remoto incidente. Foi uma aula de civismo, de patriotismo, de verdadeiro sentido de nação. O povo mostrou sua força e seu legítimo direito de apear do poder os ladrões que assaltam o país.

     O ministro Nelson Barbosa (um dos cinco ou seis mais inúteis do ministério Dilma, de resto uma fieira de inúteis e incapazes) se encontrou com as facções vermelhinhas do petê. Faz sentido. É preciso verificar quanto dinheiro público pode ser desviado para pagar a militância de aluguel. Mas acho que vai faltar grana: o des-governo esvaziou os cofres públicos e as empresas prostitutas que o apoiavam estão tirando férias num resort gradeado. Essas supostas manifestações programadas pelos perdedores só vão servir para bloquear o trânsito e o direito de ir e vir. Mas pode ser engraçado: meia dúzia de gatos pingados sacudindo bandeirinhas vermelhas em troca de cinquenta reais. A cara do PT.

     O verdadeiro movimento social estava nas ruas ontem, em todo o país. Movimento social, como o próprio nome diz, é uma ação gerada pela SOCIEDADE. A tal da CUT não é um movimento social – é um movimento sindical, o que é muito diferente. UNE, MST e congêneres são facções partidárias, profissionalizadas pelo PT. Vivem de serem pagas para não fazer porra nenhuma – por isso nunca acabam, por mais que o PT diga que “assentou milhões de famílias”. É a balela mais fácil do mundo de desmascarar. Só que a grana está acabando... e a mortadela tá mais cara, com a inflação... é, Stedile... será que você consegue arrumar três pessoas pra levar na sua Hyllux?

     O verdadeiro movimento social estava nas ruas ontem. Qualquer outra constatação é falsa. O PT está morrendo e essa é a morte mais aguardada pelo país, há muitos anos. Dilma está doente outra vez, sua magreza e excesso de maquiagem já o revelam. Lula está às portas da prisão. Se não for preso agora, será em breve. Logo, logo, seus parceiros também o serão: governadores, prefeitos, parlamentares. É uma limpeza lenta, mas inexorável.

     Milhões de brasileiros agradecem. Não só os vivos – os mortos também. Os milhares de mortos por falta de atendimento do SUS agradecem. Os idosos impedidos de se aposentar agradecem. As vítimas da insegurança nas cidades agradecem. Os milhões de crianças sem escola na “Pátria Educadora” agradecem. Os milhões de cidadãos lesados pelas telefônicas e planos de saúde agradecem. As vítimas da dengue agradecem. As mães das crianças com microcefalia agradecem. Os assassinados pela Samarco agradecem. Vai, Dilma. Vai, Lula. Vai, PT. Vai pro inferno e vê se não volta mais.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

VIRIATO CORRÊA E A IGNORÂNCIA DO LULOPETISMO

por Fernando Lomardo

     Sou fã de Viriato Corrêa. Sempre o achei um escritor pouco valorizado nesse nosso Brasil sem memória. Seu livro Cazuza, de 1938, delicioso romance didático injustamente esquecido, foi um dos livros de minha infância, e da de meus filhos, para quem eu fazia questão de ler – e eles adoravam. Além dos personagens cativantes e da força narrativa de Viriato, seu conteúdo social é espantosamente moderno. Quase todas as noções de cidadania e direitos humanos tão em voga hoje em dia estão ali, dramatizadas em histórias emocionantes: a valorização do negro; a importância da Educação; os direitos dos animais; o respeito à Natureza; a horizontalidade dos direitos humanos, entre outros.

     No que toca a Educação, um capítulo em especial era de minha preferência. O personagem adolescente Macário (nada a ver com o homônimo de Álvares de Azevedo, espécie de Fausto brasileiro) não frequenta a escola, na qual seu pai não vê função. A diretora do estabelecimento, personalidade serena e tolerante, insiste que o menino seja matriculado, ao que o pai responde em sua altivez analfabeta: “eu, meu pai, meu avô, nunca aprendemos a ler; meu pai viveu 80 anos; meu avô, 85. Eu já tenho 50; aprender a ler, para quê?” A diretora acredita no valor da Educação: “o ignorante, por mais esperto que seja, nunca faz nada direito”. Em vão.

     Certo dia, um fabricante de sandálias entregou um lote para que Macário as vendesse de porta em porta. E explicou direitinho: “Cada par custa dez; mas, se a freguesa regatear, deixe por menos”. Saiu Macário com as sandálias. Passa em frente à casa da diretora, reunida com a família na varanda, tomando a “fresca” da tarde. A irmã mais nova se interessa pelas sandálias: “Bonitas! Quanto custa o par”? E Macário: “Custam dez, mas se a freguesa regatear, deixo por menos”! Explode a gargalhada na roda. A diretora da escola arremata: “Não adianta. O ignorante, por mais esperto que seja, nunca faz nada direito”.

     Certo episódio do cotidiano político brasileiro é exemplarmente ilustrado por este capítulo. Recentemente Lulinha (filho do “filho do Brasil”), que estava calado até agora, apesar de seu nome ser citado em inúmeros eventos suspeitos, resolveu abrir a boca, e não poderia ser de forma mais desastrosa: ameaçou “mandar tocar fogo no Brasil”, caso “pa-pai” fosse ”pre-preso”. Parece não se dar conta da quantidade de confissões involuntárias que praticou numa frase tão curta.

     Em primeiro lugar, admite e reforça a tática de apelar para a bravata de cunho violento à menor contrariedade, tática (se é que merece esse nome) que caracteriza o PT e todos os que o cercam, a exemplo de Stedile e seu suposto “exército nas ruas”, a exemplo de Vagner da CUT e seu suposto “pegar em armas, entrincheirados”, à semelhança de Marcelo Odebrecht e seu suposto “acabou o Estado”, ao ser preso por seus crimes. É a percepção de que os mecanismos constitucionais estão fora de seu alcance e só resta esbravejar e ameaçar o adversário com paus e pedras. Não passa de bravata, mas é uma atitude sintomática: denota a histeria e o desespero que acometem petistas em geral, ante a ruína dos planos da quadrilha.

     Em segundo lugar, Lulinha admite a possibilidade da prisão do pai – pois quem diria “se meu pai for preso”, caso não estivesse em pânico? E por quê o pânico, se não houvesse ciência da culpa? Afinal de contas, até agora, nem Procuradoria nem Polícia Federal acenaram sequer remotamente com a prisão de Lula – o que inclusive, para alguns comentaristas, caracteriza certo favorecimento. Há no máximo alguns inquéritos em andamento – e, nas reações da população, uns bonequinhos de presidiário. Nada que preocupe “o homem mais honesto do Brasil”, ao contrário do “homem mais bonito do Brasil”, que já está em cana faz tempo. A fala de Lulinha tem cara de confissão.

     Em terceiro lugar, denota a tendência petista à “terceirização”, vale dizer, ao capanguismo, onde ninguém é responsável por nada, foi sempre “o outro” que fez. Genoíno não fez nada, foi Delúbio. Lula não fez nada, foi Dilma. Lulinha não disse que ia “tocar fogo” no Brasil – disse que ia “mandar tocar fogo no Brasil”. Como em antiga paródia do Casseta e Planeta, existe “gente que faz” e “gente que manda fazer”. Esse é o caso do PT – nunca faz nada. Só manda o capanga fazer.

     Em quarto lugar, e talvez mais importante que tudo, escancara o absoluto desprezo, desinteresse e desrespeito do lulopetismo pelo Brasil. Como sempre foi evidente pelo comportamento petista, apesar do seu discurso pelo povo e outras cascatas, o Brasil não importa. Pode pegar fogo. Ou descer ao mar com a lama da Samarco. O Brasil não importa. Só importa o PT. Só importa o butim da pirataria. Só importa meter a mão no doce quando ninguém está olhando e sair correndo enquanto ninguém percebe. O Brasil pode pegar fogo que Lulinha não está nem aí.

     Por fim, a bravata revela ainda um humorismo involuntário: quando defende seu garoto com os argumentos mais estapafúrdios, Lula faz de Lulinha um autêntico “filhinho de papai”, inocente e inalcançável. Ao tomar atitude idêntica, Lulinha faz de Lula um autêntico “papai de filhinho”.
  
     Tudo isso é revelado pela fala do menino que tem “tino para os negócios”.


 Já abordei, em um artigo intitulado “A confissão de Lula” (http://quatroasas.blogspot.com/2015/10/a-confissao-de-lula.html), o quanto o desconhecimento da linguagem, por falta de estudo mesmo, nos faz cair em armadilhas retóricas, pois o cara não se dá conta do que está falando. É o caso mais uma vez. É, de novo, a atualidade de Viriato Corrêa: “o ignorante, por mais esperto que seja, nunca faz nada direito”.

sábado, 12 de dezembro de 2015

UMA ESTRATÉGIA PARA 2018

por Fernando Lomardo

     Sou francamente a favor do impeachment. Como defendi em meu último artigo, que pode ser acessado no link ali embaixo, o impedimento político de Dilma Roussef é a melhor coisa que pode acontecer para o Brasil atualmente. Mas já houve um momento em que eu defendia o sangramento de Dilma até o fim do mandato. A razão para isso é simples: caso Temer herdasse o trono e fizesse um governo pior (e acreditem, isso é possível, pelo simples fato de estarmos no Brasil), Lula seria uma alternativa para 2018. E não é possível imaginar quadro mais catastrófico do que o retorno ao poder do governante mais corrupto e enganador da história desse país. Já se Dilma continuasse com suas cagadas (como vem continuando) por mais três anos, o PT, na sequência, seria varrido do poder, e adeus Lula e toda a corja. Esse era o meu raciocínio, até algumas semanas atrás.

     No entanto, também não é mais possível continuar com essa... pessoa no poder. Gente, pelo amor de Deus. Onde é que nós estamos? A mulher estoca vento, fala em “mulher-sapiens”, homenageia a mandioca – isso só para falar no que é cômico. Se invertermos a máscara para o lado trágico, aí a gargalhada é interrompida pelo silêncio. A mulher quebrou o país, mentiu para Deus e o mundo, distribuiu grana a dar com o pau para um Congresso fisiológico e quer que a gente pague a conta, sem falar na corrupção – na qual só os cegos e surdos podem imaginar a inocência dessa senhora. E agora, para completar, está preocupada apenas com seu pescoço (aliás, como sempre), enquanto o país se debate entre o zika, a microcefalia, a tragédia de Mariana, o roubo em todas as instâncias (agora já acharam também a Hemobrás e a transposição do São Francisco), a violência urbana, o parcelamento de salários, o adiamento de benefícios trabalhistas... o que mais falta?  É necessário primeiro tirar essa figura de lá, rápido, correndo, pra ontem, e depois pensar em como não permitir que Lula se aproxime nem da presidência de seus sindicatos pelegos, muito menos do Poder Executivo.

     Essa última tarefa seria mais fácil se tivéssemos uma oposição. Não temos. Temos manifestações populares, uma população revoltada e enojada, juristas conscientes como Bicudo e Reale e alguns jornalistas e intelectuais com inteligência suficiente para “fazer as conexões”, como disse Gabeira. Oposição política, atuante no Congresso, não temos. O PSDB é uma piada. Com sua Síndrome de Avestruz, até hoje não disse o que está fazendo lá em Brasília. Zezé Macedo, digo, Marina Silva ainda está “pensando” como a Rede vai se posicionar. Diz a sabedoria popular que “de pensar, morreu um”... bom, deixa pra lá. Quanto ao PSOL, só se preocupa com suas bandeiras de nichos ideológicos – e se o governo acenar com uma secretariazinha qualquer (de preferência ligada às “minorias”), tenho certeza que Wyllys e Alencar vão voando pro Planalto. A gente tá ferrado com essa falta de (o)posição (desculpem o concretismo fácil, não resisti).

     Como então evitar A Volta do Molusco (e não é um filme trash)? Será que basta acreditar que até lá a Lava-Jato e a Zelotes já o terão trancafiado? Ou que o simples escancaramento de toda a merda feita pelo PT fará o eleitor derrotá-lo, como já estamos vendo entre seus aliados Venezuela e Argentina? Será simples assim? Será que teremos essa sorte?

     Quem depende da sorte depende igualmente do azar. Não podemos nos dar esse luxo. Basta um quinto governo do PT para o Brasil virar o Haiti. Assim, é necessário encontrar uma estratégia eleitoral que permita a algum candidato desbancar Lula, caso ele volte com força em 2018 (e acreditem, isso é possível, pelo simples fato de estarmos no Brasil). É preciso, para isso, defrontar-se com Lula no terreno que lhe é fértil: o populismo. Pegando o povo pela emocionalidade. Pois o fiel da balança deverá ser, mais uma vez, as chamadas “classes baixas” – que continuam sendo maioria no país, a despeito do PT viver dizendo que acabou com a miséria. É necessário um discurso que se sintonize com essas camadas.

     O candidato com melhores condições de utilizar esse tipo de estratégia de campanha é Aécio Neves. Por quê? Por ser neto de Tancredo Neves.

     Parte do carisma de Lula está ligada à sua trajetória e ascenção. Um operário que chegou ao poder. O retirante que venceu a selva de pedra. “Vejam, sou ignorante como vocês”, sorria ele, sempre desprezando o estudo formal enquanto recolhia títulos de Doutor Honoris Causa concedidos por instituições interessadas nessa aproximação. É com esse cabedal que ele se lançará em 2018. Não terá mais o Bolsa Família para arrebanhar votos, já que o programa está indo para o saco mais de dois anos antes da eleição. Lula terá que voltar a vender a ilusão do “Paz e Amor” que o elegeu em 2002.

     Aécio, que até agora não soube aproveitar um único milímetro cúbico das enormes crateras políticas abertas pela incompetência do PT, também pode montar uma trajetória emocional. É diferente da de Lula, mas igualmente mobiliza o afeto popular: ele é neto do cara que reunificou o país em nome da democracia.

     A tragicidade da história do presidente que praticamente morreu no dia da posse (sim, na verdade a morte ocorreu várias semanas depois, mas ele adoeceu no dia exato – foi como se tivesse morrido ali) é uma das poucas na história política do país com dimensão suficiente para gerar verdadeiro impacto psicológico no eleitor. Só se compara ao suicídio de Getúlio. O cartunista Chico Caruso, em um de seus momentos mais inspirados, desenhou a face de Tancredo como se fosse um balão de gás, voando suave para a eternidade, enquanto uma criança vestida de verde e amarelo corria aos prantos em busca do brinquedo perdido. Uma das charges mais marcantes do jornalismo brasileiro. Era o retrato perfeito de um país sem chão, perplexo diante de um golpe inesperado. Um país nocauteado.

     Sim, tudo isso se deu há 31 anos (serão 34, em 2018) e será necessário recuperar essa história para parte significativa da população jovem que a desconhece – ou que não a viveu na pele, desconhecendo assim seus arrepios. Mas é uma história e tanto. Poucos políticos ao redor do globo tem nas costas uma história como essa. Claro que ela envolve também aspectos pessoais e uma série de pudores. Mas sou capaz de afirmar que Tancredo gostaria de ter sua memória resgatada como arma política. Ainda mais por um familiar seu. É necessário – e é legítimo.

     Lula se diz o “O filho do Brasil”, como quer o filme financiado com dinheiro público que reconstitui “a vida” do ex-operário. Aécio é “O neto de Tancredo”. Não existe filme sobre ele, nem sobre seu avô. Pode ser um bom momento para reescrever essa história – não na ficção, mas na realidade.



     Abaixo, o link do artigo em que defendo o impeachment:

POR QUÊ O IMPEACHMENT É IMPERATIVO:

http://quatroasas.blogspot.com/2015/12/por-que-o-impeachmente-e-imperativo.html

domingo, 8 de novembro de 2015

O ESPAÇO QUE A IMPRENSA DÁ

por Fernando Lomardo

     A imprensa brasileira trabalha, silenciosamente, para reeleger o PT. É a única conclusão possível. É a única explicação viável para o enorme espaço que o partido mais envolvido em corrupção da história da república recebe dos órgãos de imprensa – a mesma imprensa que esse mesmo partido chama de golpista, desde quando o ex-grevista Lula da Silva, na época ocupando o trono de presidente, tentou criar a Agência Nacional de Imprensa (cujo nome remete imediatamente ao Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo de Getúlio), com a função de censurar a imprensa livre e difundir a ideologia do regime – ideologia que, de resto, só deve se aplicar aos eleitores, que vivem de programa social, enquanto o governo e o partido vivem de milhões desviados do dinheiro público.

     Esse grupo político mantém-se no poder com uma considerável ajuda, mesmo com a conivência, de nosso jornalismo político. Uma conivência talvez involuntária, o que a torna mais constrangedora na medida em que vem de profissionais que deviam pautar-se pelo pensamento crítico.

     Há dias atrás, Lula falou em um evento do PT. Como sempre, culpou a elite e a crise internacional (???) pelos problemas do Brasil, e a imprensa pelas investigações em curso, todas inventadas por jornalistas de direita que não gostam de pobres nem de nordestinos, no dizer do ex-grevista. Todas as emissoras de TV foram pródigas em mostrar enormes trechos do pronunciamento do cacique petista. Emissoras de jornalismo da TV paga editaram trechos de 15 a 20 minutos, impingindo a ideologia (???) lulista ao espectador.

     À exceção de alguns colunistas como Fernando Gabeira e Ricardo Noblat (que também reproduz textos de outros inconformados como Mary Zaidan, Elton Simões e Maria Helena Rubinato), ou de um órgão como a revista Veja, a postura da imprensa em relação ao assalto organizado aos cofres do país, aos direitos do cidadão e à VERDADE, à pura e simples verdade, é de uma fleuma irritante. Uma imprensa blasé que se comporta de maneira casualmente neutra, como se todo o banditismo que domina a política nacional pudesse ser “analisado”, decomposto friamente, com olhares de um cientista pretensioso que examina uma água-viva de outro planeta. Parece que a imprensa não tem nada a ver com isso. Parece que o roubo institucional não a alcança, não a altera, não a prejudica. Escudada no falacioso argumento da imparcialidade, a grande imprensa se cala e nos impinge 15 minutos de Lula dizendo o que bem entender, sem que ninguém esboce reação.

     Nunca vi darem esse espaço a outro partido. Nunca vi nenhuma emissora repetir 10, 15, 20 minutos de um encontro, evento, reunião, seja lá o que for, de qualquer outro partido da nação, da mesma maneira como dão espaço ao PT. Parece que Inácio ainda exerce inelutável fascínio sobre os jornalistas brasileiros, que parecem hipnotizados quando se encontram com o “estadista planetário”, segundo o título até hoje inexplicável do Le Monde. Tampouco vejo qualquer órgão da imprensa contestar com determinação os abusos, calúnias e agressões praticados por esse falso migrante. Ele fala o que quer e ninguém contesta. Nenhum jornalista cobra dele: “Prove o que está dizendo”. Só se exige provas da Polícia Federal.

     Em entrevistas recentes, constatamos mais uma vez o assoalho de ovos que parece se alastrar diante da imprensa quando se trata do PT e de seu governo. Miriam Leitão entrevista o ministro José Eduardo Cardozo, Kennedy Alencar entrevista Lula. Em ambos os casos as perguntas são cautelosas, tímidas. Comportadas. Uma postura longe de qualquer combatividade, atitude tão necessária em um momento em que o país agoniza e os responsáveis, cavalgando a hipocrisia, respondem como o editor-fake da extinta revista MAD: “Quem, eu me preocupar”?

     A entrevista de Kennedy Alencar com Lula é de fato exemplar. A começar pelo cenário, um típico painel de fundo de campanha eleitoral: fotos gigantes de Lula em diversas épocas, bradando, sorrindo, diante de uma multidão (quando Kennedy entrevistou Fernando Henrique, em outubro deste ano, o cenário era apenas o mobiliário da sala, sem fotos, sem grandiloquência).

     Cínico, Lula, que sempre desqualificou as investigações do Mensalão e da Lava-Jato, diz que foi nos 12 anos do PT que as instituições se fortaleceram. Que isso não acontecia há 15 anos, evidentemente referindo-se ao governo FHC. Kennedy assentiu. Não lembrou a Lula que, “a quinze anos atrás”, o único pseudo-escândalo que atingiu o governo tucano foi a desmascarada Operação Cayman – uma farsa inventada pelo PT e rapidamente anulada pela Polícia Federal, que comprovou serem falsos todos os documentos. Não lembrou a Lula que a tal “pasta cor-de-rosa, que nunca apareceu”, não apareceu simplesmente porque nunca existiu, como provaram as investigações. Não relembrou ao entrevistado que a corrupção mais devastadora da história do país começou com o Mensalão, no governo Lula, e se agigantou no Petrolão, que envolve tanto o governo do ex-sindicalista quanto o de sua criatura Dilma Roussef. As referências de Kennedy a estes dois escândalos foram breves e superficiais. Lula tentou controlar a imprensa e o STF, vive tentando controlar o Ministério Público e se pudesse, botaria todos os oposicionistas em cana, como bom castrista. Mas afirma que seu governo investigou alguma coisa, e Kennedy assente calado.

     Sabemos que Lula só fala para platéias compradas. O verdadeiro povo não o engole e não o aceita. Ele mesmo já confessou, manhoso e chorão, que não pode ir a restaurantes ou a lugares públicos. Evita o verdadeiro cidadão. Quem ouve seus discursos são apenas papagaios de pirata alugados a preço de banana e alguns grandes empresários que vêm se dando bem com o petê no poder.  Assim, seu discurso mitomaníaco, não sendo veiculado, ficaria lá, restrito aos íncubos, aos cumpanhêro e cumpanhêra idiotizados que balançam bandeirinhas vermelhas. Ficaria restrito a esse público domado – se não fosse o favor da imprensa. Se não fosse a imprensa brasileira oferecer 40 minutos de palanque. Se não fosse a imprensa brasileira, em sua esmagadora maioria, repetir, em todos os seus horários, áudio e vídeo do indigesto palestrante impedido de frequentar restaurantes.


     O próprio Lula admitiu ao final da entrevista (provavelmente em mais um ato falho de quem desconhece armadilhas da linguagem): “Eu estou fazendo política a partir de hoje”. Com um espaço desse tamanho, até eu faria. Com um espaço de 40 minutos de uma emissora de grande audiência, quem não quer? Essa é a nossa “imprensa golpista”. A continuar assim, o PT não precisará mais desviar dinheiro público para financiar campanhas: a imprensa dará o espaço gratuitamente. E continuará posando de “analista” e “especialista”, enquanto o país afunda irreversivelmente.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

MINISTRO MARCO AURÉLIO MELO NO PROGRAMA RODA VIVA

por Fernando Lomardo

     Desnecessária, quase nula, a entrevista do magistrado Marco Aurélio Melo no programa Roda Viva da TV Cultura, nesta 2ª. feira, 19 de outubro de 2015, às 22 h.

     Bendita língua portuguesa. Eu disse quase nula. O advérbio é providencial na medida em que as posições do ministro, se em absolutamente nada colaboram com o Brasil e com o bem estar da população, ao menos ilustram a posição do magistrado frente aos graves problemas do país, e quiçá sirvam de reflexo para compreender seus pares – porque “tomo meus colegas como a mim mesmo” (sic).

     Momentos de singela pureza enterneceram o espectador. Ao dizer que sabe “conviver com divergências”, o ministro citou o Fla-Flu caseiro, em que ele é Flamengo e a esposa (também juíza), Fluminense. Pareceu-me ver margaridas brotando no estúdio da TV Cultura. De fato, é uma divergência análoga à de forças da ordem pública (como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal do Paraná) lutando contra decisões encomendadas a ministros nomeados por encomenda.

     Não faltaram também momentos de demagogia. Marco Aurélio Melo gosta de falar em nome do povo e dizer que a crise econômica tira o sustento, “o pão da mesa”. Mas recusa-se a ver o emperramento do aparelho jurídico, que envolve morosidade inadmissível da primeira à última instância do Judiciário - e que tal circunstância, em um país que tem milhões (sim, milhões) de processos na justiça, também tira o pão da mesa, pois, na grande maioria desse processos (muitos deles envolvendo precatórios, recurso imoral do Estado cujo objetivo precípuo é o de prejudicar o cidadão), repito, na maioria desses processos o cidadão, dolosamente prejudicado pela iniciativa privada ou pelo poder público, MORRE sem receber a devida reparação, sim, de ordem pecuniária, na maioria dos casos roubada pela iniciativa privada ou pelo poder público. Direitos adquiridos, benefícios oriundos do justo suor, são diuturnamente vilipendiados por governos irresponsáveis e falaciosos, direitos são adiados ad eternum pelo emperramento jurídico de um aparelho obsoleto e prepotente. Nada disso é mencionado pelo magistrado que supõe falar em nome do povo. Da mesma maneira, recusa-se a comentar as falhas de um Código Penal de 1916 e de um Código Civil de 1941, recusa-se a reconhecer que a Defensoria Pùblica é uma falácia e recusa-se a reconhecer o favorecimento à impunidade possibilitado pelos inúmeros recursos de nosso sistema. Compara o Brasil aos Estados Unidos, talvez desconhecendo que a comparação é uma piada. Afinal, se os Estados Unidos têm um número bem maior de serial-killers, por outro lado têm um número infinitamente menor de latrocínios e homicídios culposos, causados por embriaguez no trânsito, por exemplo – e, principalmente, um número vergonhosamente (para o Brasil) menor de homicidas respondendo em liberdade, pelo recurso a fianças ou habeas-corpus.

     Em suma, o magistrado não acrescentou nada que colabore com o andamento proativo da solução dos problemas singulares e possivelmente inéditos que o Brasil vive hoje, aqui fora, longe dos salões e das capas do STF. Além de sua sugestão, que ele mesmo classifica de “utópica”, e que de fato não é mais do que ingênua, de que Dilma, Cunha e Temer renunciem juntos (?!?!?!?!), o magistrado não apresentou um minúsculo rascunho de solução para os problemas do Brasil – vale dizer (antes que alguém me corrija, dizendo que não é função de um juiz do Supremo), nem mesmo para problemas de ordem especificamente jurídica, que são seu objeto de trabalho. Não. O ministro estava preocupado apenas com formalidades judiciosas, como afirmar que Juízes do TRF-4 não são desembargadores. Enfim, preocupado com questões absolutamente irrelevantes para a população brasileira.

     É aqui que o advérbio quase apresenta sua função. A entrevista do ministro do Supremo só não foi completamente nula porque permitiu elucidar alguns pontos da atual conjuntura jurídico-política do país. Permitiu confirmar que o Juiz Federal Sérgio Moro (se compreendermos o sentido inverso das palavras do ministro Marco Aurélio) está definitivamente no caminho certo. Permitiu compreender que Sérgio Moro surpreende, intimida e gera mesmo inveja em outras instâncias do Poder Judiciário. Permitiu entender que, apesar do esforço do ministro Marco Aurélio em defender seus pares, existe mais de um peso e medida para o que ocorre no Supremo.

     O ministro negou veementemente a hipótese de que ministros do Supremo possam retribuir a indicação partidária com favores ao partido. Porém, depois de afirmar que “não se agradece com a capa” (com o incompreensível assentimento de José Nêumanne Pinto, cujas experiência e inteligência já deveriam ter convencido do contrário), ficou sem resposta ao ser interpelado sobre a consulta (irregular, senão ilegal) de Dias Toffoli a Dilma sobre a relatoria de Gilmar Mendes, em processo que corre no TSE.

     Em outro momento, vivas à Freud, cuja presença espiritual o ministro ignorava. Mas “o inconsciente fala”, nos ensina o mestre vienense. Depois de ressaltar, por várias vezes, que “tomo os colegas como a mim mesmo”, (ou seja, sabe que eles têm seriedade idêntica à sua) e que “trabalha pesado” (o que ninguém duvida), o ministro revelou que “não sou locutor de assessor” – ou seja, não fico apenas repetindo o que meus assessores interpretaram para mim. Ocorre que dizer que “não sou locutor de assessor” significa que alguém o é – e como se tratava de comparações com os colegas do STF, esses “locutores” lá estão. Quem serão?


     É, a entrevista foi quase nula.

sábado, 17 de outubro de 2015

PAREM DE DIZER QUE DILMA É HONRADA

Parem de dizer que Dilma é honrada
Fernando Lomardo

     Não são poucos os artigos e editoriais que tenho lido examinando a caótica situação política e moral do país, e a responsabilidade da presidente nesse quadro. Mas uma afirmação recorrente me causa estranheza: a de que Dilma “não enriqueceu pessoalmente”. Atribuem a ela, no máximo, negligência ou incompetência. Nada de intenção na espoliação da Petrobras (que é só o que sabemos, por enquanto; quando estourarem Eletrobras, BNDES e outras, não quero nem ver como vamos dormir). Alguns, como o ex-presidente FHC, fazem questão de afirmar que Dilma é “honrada”, num momento em que as inúmeras mentiras da presidente já se escancaram por todo o planeta e, apesar disso, seu Ministro dos Retalhos não sabe fazer outra coisa além de taxar o contribuinte e tentar cortar mais da Previdência.

     Bem, meu conceito de honra é bem outro. Alguém honrado já teria admitido que mentiu. Alguém honrado já teria compreendido que não é capaz de tocar esse barco e teria pedido o boné. Alguém minimamente honrado não estaria se agarrando ao trono de forma covarde, esperneando desesperado, oferecendo ministérios em troca do próprio pescoço, quando aqueles deveriam ser ocupados por técnicos e especialistas capazes de enfrentar desafios e problemas e encontrar soluções no âmbito da gestão de Estado e não do bolso do contribuinte.

     Dilma está muito longe do que um simples dicionário define como honrado. Com sua empáfia, garantida apenas por cinismo e hipocrisia sem antecedentes, por fidelidade canina à mentira, talvez por mitomania patológica, Dilma disse que “não respeita delator”, porque ela mesma não traiu. Cerveró que o diga. Foi delatado covardemente pela presidente, que afirmou ter assinado a compra de Pasadena mediante relatório do pobre diretor – de resto, outro corrupto – como se ela, presidente do Conselho de Administração, não tivesse a obrigação de ler detalhadamente a porcaria do relatório e identificar ali as falhas, irregularidades, incongruências. Ou seja, Dilma o responsabilizou – em bom português, Dilma culpou o diretor internacional da Petrobras na tentativa de isentar-se da própria culpa. Entregou um colega para tirar o seu da reta. Se isso não é uma delação, digam-me o que é.

     Por favor, jornalistas, “especialistas” e editores, parem de dizer que Dilma é “honrada”. Parem de dizer que Dilma “não enriqueceu pessoalmente”. Como é que vocês sabem? Têm por acaso acesso ao extrato bancário da dona? As contas dela foram devassadas? Seu patrimônio foi levantado? Como podem ter tanta certeza? Por quê essa ansiedade em assegurar a honradez de uma mulher diretamente envolvida na maior operação de desvio de dinheiro público da história política da humanidade?

     Se, do ponto de vista judicial, a dita “presunção da inocência” e as melífluas armadilhas interpretativas sobre fatos “anteriores ao mandato” permitem que a vastidão de evidências contra Dilma permaneça ignorada, do ponto de vista meramente factual o povo já tomou sua decisão. Contra fatos não há argumentos, e os fatos da realidade são diferentes dos fatos jurídicos. Se a justiça (ainda mais essa nossa justiça) continua insistindo na presunção da inocência, a sociedade já protocolou e assinou sua presunção de culpa.

domingo, 4 de outubro de 2015

A DEFESA DO BANDITISMO DISFARÇADA DE CRÍTICA SOCIAL - Fernando Lomardo

    O jornal O Estado de São Paulo publicou, em sua edição de 03 de outubro de 2015, um artigo do sociólogo José de Souza Martins, que pode ser acessado no link abaixo:

     http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,historia-que-se-arrasta,10000000191

     O autor critica a ação preventiva da polícia carioca contra os arrastões nas praias, comparando-a a ações do tempo da Abolição, e justifica o arrastão como manifestação legítima das comunidades "excluídas".

     O texto abaixo é minha resposta a este artigo:

A DEFESA DO BANDITISMO DISFARÇADA DE CRÍTICA SOCIAL
Fernando Lomardo

     “Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão”. (Ditado popular).

     Parece ser esse, em suma, o “ensinamento” que o sociólogo José de Souza Martins pretende nos transmitir em seu artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 03 de outubro de 2015. Os menores que praticam arrastão nas praias do Rio têm o direito de roubar, pois a sociedade – melhor dizendo, a “elite” – roubou deles o acesso a um lugar ou a um “pertencimento” (conceito acadêmico de bolso, mais ou menos recente e que justifica qualquer distorção em favor de supostos direitos sociais).

     A princípio, o texto pode parecer despeito de paulistano. O simples uso da palavra “periferia” escancara um certo desconhecimento da vida no Rio, já que aqui a favela está geograficamente entranhada em toda a cidade, inclusive na supostamente glamourosa Zona Sul, e a palavra ”periferia” pouco se faz presente no vocabulário carioca.

     Mas não nos enganemos. É muito pouco atribuir as mirabolantes distorções do artigo a uma simples “rivalidade”, responsável por pérolas como “a praia é um faz-de-conta”. Não. Muito pelo contrário, o texto do senhor Martins é bem cuidadosamente articulado através de clichês socio-econômicos cujo objetivo é colocar-se em defesa de supostos excluídos e justificar ações, programas e estudos, na esfera pública e privada, que acabam movimentando milhões em reais, anualmente.

     A opção pelo conceito de “ostentação” para ilustrar o comportamento dos banhistas, ricos ou pobres, mostra o quanto o autor está na moda. Penso mesmo que ele deveria, ao invés de escrever um artigo, compor um funk carioca. Antenado com a atualidade, lança mão de todos os lugares-comuns que o discurso politicamente correto (inclua-se aí mídia, políticos e acadêmicos) tem disparado em sua cruzada contra o “preconceito”.

     A comparação com a Lei de Repressão à Vadiagem é mais frágil que um cubo de gelo largado no sol. Não existia, na época da Abolição, nada remotamente comparável à violência urbana hoje presente nas metrópoles brasileiras (e gradativamente migrando para cidades menores, como resultado da repressão a esses pobres excluídos que são obrigados a roubar e matar). Autores como Nabuco já haviam prevenido sobre o “14 de maio” (o período imediatamente posterior à abolição), antevendo que seria flagrante a falta de opção dos ex-escravos.  Os dois quadros sociais são tão semelhantes entre si quanto uma banana e um computador, assim como as ações neles contidas: a detenção, efetivamente injusta, de um sujeito que não está fazendo absolutamente nada (em 1888) e a ação preventiva contra grupos que efetivamente se preparam para roubar, agredir e, conforme o caso, matar (em 2015, ou 1992, como bem ilustrou o artigo de Mario Vitor Rodrigues publicado no Blog do Noblat).

     Torna-se inevitável citar um pensador irlandês, o que vai jogar mais lenha na fogueira. Afinal de contas, Oscar Wilde era branco, aristocrático e europeu, ou seja, o típico exemplar de uma Elite Colonialista Imperialista Opressora Responsável Pela Desigualdade Social Dos Países Do Terceiro Mundo Secularmente Explorados Pelo Invasor Estrangeiro, de acordo com o Dicionário Nacional de Clichês Acadêmicos. Em contrapartida, era homo-erótico, o que talvez lhe assegure um lugarzinho na última fila dos esquerdistas de botequim.

     A citação é: “Só os superficiais não julgam pelas aparências”. Tradução: as aparências não enganam. Não há grande dificuldade de diferenciar bandidinhos menores de idade de um rapaz comum que está apenas indo para a praia. Bandidinhos andam em grandes bandos, como esclarece a etimologia (bandido = membro de bando), pulam roletas de ônibus ou entram pela janela, ameaçam motoristas, cobradores e passageiros, cantam proibidões em altos brados, propagando crimes como “derrubei o avião” (helicóptero da polícia), “vou meter o três-oitão” (revólver calibre 38), “na favela vai morrer” (o policial ou o cidadão), entre outras ações de óbvia manifestação de ódio, discriminação e violência.

     Não é fato que não possuem sinais de pertencimento. Possuem e muitos, na própria pele. Escarificações à base de canivetes ou cacos de vidro. “Na pele dura mais”, disse um interno de instituição socio-educativa a uma professora. E apontam o pertencimento pelo qual optaram: siglas como CV ou ADA, indicativas de grupos criminosos contados entre os mais perigosos e violentos do mundo.

    À “cerca invisível”, ao “bloqueio simbólico” e outras facilidades retóricas pretensiosas, disfarçadas de análise social, se contrapõem, avassaladores, o assalto, o roubo e a agressão concretos, bem visíveis e reais. Uma facada na barriga não é simbólica. Um cordão arrancado, deixando marcas de sangue no pescoço, não é invisível. Invisível, mesmo secreto, talvez seja o que move esses acadêmicos de boteco a defenderem bandidos.


     Esse tipinho de discurso sustenta uma vertente lucrativa da atuação acadêmica, assim como da política: a defesa das chamadas “políticas afirmativas” e outras ações e iniciativas de “recuperação”, que movimentam milhões de reais em dinheiro público e privado, através de programas de governo e de iniciativas de empresas e do Terceiro Setor. Não sei se o autor do artigo faz parte deste tipo de grupo. Se não faz, talvez esteja louco para entrar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

TÁ PENSANDO QUE EU SOU POLÍTICO?

     TÁ PENSANDO QUE EU SOU POLÍTICO?


     O Palhaço sempre foi visto como o inverso do homem social. Avesso à seriedade e ao compromisso, tem muito de atrapalhado e algo de preguiçoso. Representa o deboche e o escárnio, mas também a pureza e a ingenuidade. Por estes atributos, é sempre vilipendiado por alguém mais esperto; geralmente é enganado, espoliado, lesado, e ainda apanha e leva uns tombos. Tudo de ruim acontece com o Palhaço. Mas ele sempre segue em frente recuperando o bem estar e a alegria, a esperança de dias melhores e a fé na humanidade. Como um desenho animado, o Palhaço nunca se machuca.

     Daí ser o Palhaço o símbolo do homem lesado, por sua ingenuidade. Muitas vezes, por sua burrice. Ao se ver em uma situação de iminente ou rematado prejuízo, o homem comum protesta: “Tá pensando que eu sou palhaço”? Só o palhaço pode ser lesado impunemente. O palhaço pode ser sacaneado à vontade, ele nunca vai reclamar. Mas permanece inalterada sua envergadura moral, sua honestidade, sua solidariedade, sua dedicação ao outro.

     Por outro lado, o Político, ao menos no Brasil, já ultrapassou o âmbito do mero substantivo para se tornar um sinônimo: sinônimo de desonestidade, de dissimulação, de falta de caráter, de covardia. O Político banalizou o furto, a apropriação indébita, o roubo. O homem comum constata: “todo mundo que chega “lá em cima” (metáfora para o poder e a plena liberdade de praticar atos ilícitos) rouba; você não roubaria também”? Pronto. O roubo está banalizado, na preguiçosa e subserviente ótica da população brasileira. Roubar é lícito, desde que seja por um político, pois políticos podem tudo, escondidos em sua capa de legitimidade supostamente garantida pelo voto de um povo que respeita o ladrão institucional.

     Você prefere ser Palhaço ou Político? Não tenho dúvidas de que 90% da população brasileira preferirá o Político. Não trabalha, recebe salários milionários, se aposenta com oito anos, tem tudo de graça (apartamento, carro, terno, passagem de avião, talvez não pague nem pelo palito de dente), pode aumentar o próprio salário (é a única categoria do mundo que pode fazer isso) e, principalmente, pode roubar à vontade. Já o Palhaço não ganha porra nenhuma (a menos que seja do Cirque du Soleil, mas aí já é outro palhaço, fashion-cult-pós-hightech), leva porrada, não se aposenta nunca (vejam só o Carequinha, ou o Arrelia, que trabalharam até o fim da vida) e é, sobretudo, incorruptível.


     Por estes aspectos, não faz sentido que alguém, envolvido inadvertidamente em algum tipo de falcatrua, proteste: “Tá pensando que eu sou Palhaço”? Faz mais sentido que ele diga “Tá pensando que eu sou Político”?, pois este é o seu terreno: o terreno da enganação, do vilipêndio, do “dar uma volta”, “dar um chapéu”, “levar na conversa”, “passar um cheque sem fundos”, é o terreno do Político. Deixa o Palhaço em paz. É atribuição do Político (já que lidam uns com os outros) enrolar e ser enrolado, enganar e ser enganado, mentir e corromper. Sim, eu sei que o Palhaço é aquele que é enganado; e o Político é aquele que engana. Por isso, faz sentido perguntar “Tá pensando que eu sou Palhaço”? Mas proponho essa inversão pela necessidade da circunscrição de territórios. Se a mentira e a enganação são o ofício do Político, deixemo-lo responsável por ele, como agente ativo ou passivo. Se o Palhaço é antes de tudo honesto, deixemo-lo em seu território, longe dos perigos devastadores representados por uma eleição. E a cada vez que você se vir envolvido, direta ou indiretamente, em qualquer situação que caracterize mentira, hipocrisia, enganação, vilania, falta de caráter, falta de coragem, pusilanimidade, encha os pulmões e pergunte com todas as letras “TÁ PENSANDO QUE EU SOU POLÍTICO”?


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Anos de chumbo e concreto

Anos de chumbo e concreto
Pedro Henrique Pedreira Campos

     Foi durante a ditadura que as grandes empreiteiras consolidaram seu poder, em íntimas ligações com o Estado

     1/6/2015 


     A Operação Lava Jato, deflagrada em 2014 em ação conjunta da Polícia Federal e do Ministério Público, colocou atrás das grades dirigentes executivos das maiores empresas brasileiras de engenharia. As investigações revelaram que as empreiteiras se organizavam na forma de cartel e mantinham esquemas de corrupção em contratos com a Petrobras. Mas este tipo de relação promíscua entre empresários e órgãos públicos não é exatamente uma novidade. O poder e a influência política dos empreiteiros de grandes obras devem muito ao período da ditadura civil-militar.

     As principais empresas do ramo foram fundadas entre as décadas de 1930 e 1950, momento em que o eixo do desenvolvimento econômico brasileiro se deslocava do campo para as cidades. Para dar conta desse processo, foi montada uma infraestrutura voltada ao desenvolvimento da indústria, com empreendimentos principalmente nas áreas de energia e de transporte. O Estado demandou grandes obras para as corporações de engenharia, ajudando a impulsionar o desenvolvimento industrial. Camargo Corrêa (1939), Andrade Gutierrez (1948), Queiroz Galvão (1953), Mendes Junior (1953)... como o nome da maior parte dessas empresas indica, elas tiveram em sua origem (e têm até hoje) o controle eminentemente familiar.

     O governo Juscelino Kubitschek (1956-1961) foi muito importante para o desenvolvimento das empreiteiras, encomendando-lhes as rodovias previstas no Plano de Metas e as obras da nova capital federal, Brasília. As corporações do setor tiveram então um crescimento impressionante. De pequenas e médias empresas locais tornaram-se grandes firmas nacionais. Nos anos e nas décadas seguintes, sob a ditadura, as construtoras alcançaram uma expansão sem precedentes, em virtude de políticas estatais favoráveis às atividades do setor, incluindo um intenso programa de obras públicas. Formaram-se grandes grupos na indústria de construção pesada. Com incentivo estatal, as empresas se ramificaram para outros setores econômicos, e desde 1968 passaram a realizar obras também em diversos países. Foi a ditadura a responsável pela gestação de grandes conglomerados internacionais liderados pelas empreiteiras. E o poder conquistado por esses grupos consolidou-se de tal forma que não foi abalado nem com a transição do regime político, na década de 1980.

     Ainda no período Kubitschek, os empresários da construção passaram a se organizar em associações e sindicatos nacionais. Foram criadas entidades como a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e o Sindicato Nacional da Construção Pesada (Sinicon) – que desempenhariam papel relevante na desestabilização do governo João Goulart e na deflagração do golpe civil-militar. Diretores dessas entidades participavam também do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), que reunia oficiais da Escola Superior de Guerra (ESG) e representantes de empresas multinacionais e assumiria ativamente a campanha para derrubar João Goulart. Caso emblemático foi o de Haroldo Poland, presidente da empreiteira carioca Metropolitana, ex-presidente do Sinicon e que desempenhava função fundamental dentro do Ipes. Ligado a oficiais militares, Poland foi um dos agentes civis mais importantes no golpe de 1964.

     Ao longo da ditadura, esses organismos fortaleceram sua atuação junto ao Estado, conquistando livre trânsito em certas agências e influenciando a agenda das políticas públicas nacionais. Enquanto as organizações populares e os sindicatos dos trabalhadores eram cerceados e suas lideranças perseguidas, não havia o mesmo tipo de repressão às organizações representativas das empresas da construção civil, que se multiplicavam e tinham intensa proximidade com certas figuras do governo. A Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) e a União Nacional dos Estudantes (UNE) foram fechadas pela ditadura, enquanto continuavam sendo criadas entidades de empresários da engenharia, como a Associação Brasileira de Engenharia Industrial (1964), o Sindicato da Construção Pesada de São Paulo (1968) e a Associação de Empreiteiros do Estado do Rio de Janeiro (em 1975).

     A política de repressão e terrorismo de Estado contou com o apoio, inclusive financeiro, de empresários e empreiteiros. A Camargo Corrêa foi uma das empresas que contribuíram com iniciativas para desbaratar a esquerda armada e suas organizações, usando métodos que incluíam tortura e assassinatos. A mais conhecida foi a chamada Operação Bandeirantes, financiada por empresas como grupo Ultra, Camargo Corrêa, Folha de S. Paulo, Nestlé, General Electric, Mercedes-Benz e Siemens.

     Grandiosos empreendimentos foram realizados durante o regime, fortalecendo as maiores construtoras, que ficaram responsáveis pelas principais obras do período. Itaipu e outras hidrelétricas de grande porte, a Transamazônica e outras rodovias em diversas regiões do país, a Ferrovia do Aço e projetos no setor ferroviário, os metrôs do Rio e de São Paulo, os conjuntos habitacionais do Banco Nacional de Habitação (BNH, criado em 1964), as usinas termonucleares de Angra dos Reis e a ponte Rio-Niterói foram alguns dos projetos de grande envergadura que saíram do papel naquele período.

     Com o suporte institucional do AI-5, em 1969 o governo estabeleceu reserva de mercado para as obras públicas realizadas no Brasil: a partir de então, somente companhias sediadas no país e com controle nacional poderiam ser contratadas. Várias outras medidas beneficiaram o empresariado, como isenções fiscais, financiamento público de obras internas e no exterior, entre outras decisões que ampliavam as margens de lucro da iniciativa privada. Em relação às políticas trabalhistas, também houve favorecimento generalizado aos empresários, e aos empreiteiros em particular. Medidas de “arrocho” salarial implantadas a partir do golpe beneficiavam companhias que empregavam numerosa força de trabalho, caso das empreiteiras. A repressão aos sindicatos permitia que as empresas ignorassem as demandas dos operários por melhores condições de trabalho. Com fiscalização relapsa em relação à segurança, o país virou recordista internacional em acidentes de trabalho – no auge da ditadura, chegou-se a registrar 5 mil trabalhadores mortos por ano, e o setor de construção civil era um dos principais responsáveis por essas estatísticas.

     Para as empresas de engenharia era rentável manter condições inadequadas e perigosas nas obras e não dar atenção à saúde do funcionário, visto que as multas – quando aplicadas – eram de reduzido valor. Quando ocorriam acidentes, era prática corrente culpar o próprio trabalhador, isentando o empregador da sua responsabilidade. Não à toa, ao final do regime, em meio ao processo de abertura política, eclodiram diversas greves, revoltas e motins em canteiros de obras, inclusive em grandes empreendimentos como a usina de Tucuruí, erguida entre 1976 e 1984 em plena selva amazônica.

     Sob as bênçãos da ditadura, o Brasil viu consolidar-se um capital de novo porte, monopolista em alguns setores da economia – e entre estes destacou-se a construção civil. Alguns poucos grupos chegaram a um patamar diferente, extremamente vigoroso, detendo amplo poder econômico e político. As principais empresas beneficiadas foram Odebrecht (Norberto Odebrecht), Camargo Corrêa (Sebastião Camargo), Andrade Gutierrez (Sérgio Andrade) e Mendes Júnior (Murillo Mendes). Dentre os agentes políticos da ditadura associados aos empreiteiros, destacam-se Mario Andreazza (ministro dos Transportes de 1967 a 1974 e do Interior de 1979 a 1985), Eliseu Resende (diretor do Departamento Nacional de Estradas de      Rodagem [DNER] e ministro dos Transportes de 1979 e 1982) e Delfim Netto (ministro da Fazenda de 1967 a 1974). O cenário forjado nos anos 1960 e 1970 foi altamente favorável ao crescimento das atividades dessas empresas, em ambiente propício para a acumulação de capital. A participação ativa que esses e outros empresários tiveram junto ao governo é mais uma prova de que o regime não foi somente militar, mas também civil, com corporações e Estado de mãos dadas em esquemas de favorecimento mútuo. Um casamento que, tudo indica, resistiu incólume à mudança de regime, e persiste em tempos democráticos.

Pedro Henrique Pedreira Campos é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e autor de Estranhas Catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar brasileira, 1964-1988 (Eduff, 2014).

     Saiba mais

     CRUZ, Sebastião Velasco. Empresariado e Estado na Transição Brasileira: um estudo sobre a economia política do autoritarismo (1974-1977). Campinas/São Paulo: EdUnicamp/ Fapesp, 1995.

     DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1981.

     FONTES, Virgínia & MENDONÇA, Sonia Regina de. História do Brasil Recente: 1964-1992. 4. ed. atualizada. São Paulo: Ática, 1996 [1988].

     LEMOS, Renato. “Contrarrevolução, ditadura e democracia no Brasil”. In: SILVA, Carla Luciana; CALIL, Gilberto Grassi & SILVA, Marco Antônio Both da (orgs.). Ditaduras e Democracias: estudos sobre hegemonia, poder e regimes políticos no Brasil (1945-2014). Porto Alegre: FCM, 2014.

     Filme


     Cidadão Boilesen (Chaim Litewski, 2009)