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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A FALÁCIA DA FALÊNCIA

     ESTE É O PRIMEIRO DE UMA SÉRIE DE TRÊS ARTIGOS QUE VISAM DENUNCIAR TRÊS GRANDES FARSAS INSTITUCIONAIS BRASILEIRAS. ESTAS FARSAS SÃO MONTADAS E DIVULGADAS POR POLÍTICOS E EMPRESÁRIOS, E IMEDIATAMENTE ENCAMPADAS POR ECONOMISTAS, JORNALISTAS E POR UMA SUPOSTA INTELECTUALIDADE. SÃO ELAS: A CRISE FINANCEIRA, A QUEBRA DA PREVIDÊNCIA, E A PRIVATIZAÇÃO.     

A falácia da falência
por Fernando Lomardo

     “Embora por motivos diferentes e por caminhos distintos, Brasil e Grécia chegaram ao mesmo ponto em que o tesouro quebra e falta dinheiro para tudo”.

     O cinismo da afirmação acima, expressa no Editorial do jornal O Globo de 13 de novembro de 2016, escancara a conivência da imprensa brasileira com um tipo de administração pública congenitamente ligada à mentira e ao banditismo.

     A Grécia tem lá seus problemas, sobre os quais podemos dizer, como um Donald Trump da vida, que não nos interessam. Quanto ao Brasil, que é problema nosso, todos sabemos (inclusive o jornal O Globo) que não quebrou: o Brasil foi, e continua sendo, roubado –  o que é bem diferente.

     O roubo não está apenas na corrupção, no desvio de dinheiro público, nos financiamentos ilegais de campanha, nem apenas nos subornos pagos por grandes empresas – subornos, no jargão da imprensa, infantilmente tratados como “propina”, como quem chama ânus de “bumbum”. Não. O roubo também está no custo espantoso de um legislativo impregnado pelo crime, onde apartamentos, ternos, viagens, sessões extras e salários injustificáveis são todos extorquidos do dinheiro do contribuinte - e isto se dá nas três esferas da administração pública: na municipal, na estadual e na federal. Bilhões de reais anualmente vão para o esgoto da sustentação de câmaras e assembléias cuja principal atividade consiste em legislar em causa própria e lesar o cidadão contribuinte.
  
     O roubo está na isenção fiscal concedida a quem deveria pagar mais imposto, ou seja, os grandes conglomerados empresariais, cujo faturamento é notoriamente assombroso e só mesmo o roubo justifica a insolvência financeira de alguns deles - assunto a que voltaremos no terceiro artigo da série, “A farsa da privatização”. 

     E o que vai acima não é tudo. O roubo de dinheiro público também está também em tecidos cancerosos como o fundo partidário, onde o cidadão é obrigado a pagar pela eleição de quem vai espoliá-lo, como se colocássemos um lauto prato de ração para a raposa que em seguida nos devastará o galinheiro.
  
     O roubo está na imoralidade de salários acima do teto da lei, recebidos principalmente por membros do poder judiciário, a maioria juízes e desembargadores; está no vilipêndio ao cidadão e contribuinte que dedicou sua vida útil ao país e hoje vê os abutres, representados pelo governo, pelo legislativo e pela imprensa, sobrevoarem sua aposentadoria, esperando para descartar o cidadão por inútil, como os Quatro Músicos de Bremen abandonados a partir da velhice.

     A imprensa parece realmente acreditar no discursinho criminoso da “falta de dinheiro” e seus filhotes: a previdência, os programas sociais, as verbas para Educação e Doença (não se pode usar o termo “saúde” no Brasil).  Se acredita de fato, é burra; se apenas finge acreditar, é conivente. 

     Mas essa conivência sofreu um duro golpe na semana que termina agora: após prenderem um dos maiores criminosos do país, o parisiense Sérgio Cabral, a Polícia Federal e o Ministério Público afirmaram textualmente, em sua entrevista coletiva de 17/11/2016, que a alegada falta de recursos hoje enfrentada pelo Estado do Rio de Janeiro é fruto de DESVIO DE DINHEIRO PÚBLICO (vale dizer, roubo), não de má administração. Simples assim. Sem a complexidade pretensiosa que os supostos analistas e especialistas da imprensa querem alegar em seus editoriais, colunas e programas de debates.

     A partir dessa constatação, que a cada dia se torna mais e mais cristalina e indiscutível, esperamos que os verdadeiros jornalistas e editores (pois sabemos que eles existem) reprogramem suas pautas e seus cadernos. De modo que as questões referentes à alegada “quebra do Tesouro” deixe de frequentar as páginas de política e economia e passe a frequentar as páginas policiais; e que as manchetes e chamadas sejam substituídas por um texto mais adequado: ao invés de “O PAÍS ESTÁ QUEBRADO”, a verdade: “O PAÍS ESTÁ SENDO ASSALTADO”. 

     Sabemos todos que uma imprensa livre é um dos pilares da democracia. Mas que ela seja realmente livre, não cooptada por grupos de interesses. E talvez não seja pedir demais um pouquinho de originalidade e inteligência, ao invés da mecânica repetição dos argumentos rotos e surrados de políticos e empresários.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

CUMPLICIDADE E CONIVÊNCIA: NO BRASIL, O CRIME COMPENSA

Lanço aqui o texto “Cumplicidade e conivência”, dramaturgia em 6 atos, com fundo moral. Acompanhem, @LFPezão e @STF_oficial.

1º. ato: governo do RJ decide que não vai mais pagar o funcionalismo. Põe a culpa na farsa da crise, quando todos sabem que o dinheiro foi roubado.

2°. ato: @LFPezao, o capacho inventado por @SergioCabralRJ, se licencia. Assume a Múmia do Faraó Quéops, quer dizer, Francisco Dornelles.

3°. ato: o motivo da manobra é óbvio: ninguém ataca um canceroso, nem um velho senil.

4°. ato: O ministro Lewandowski desmonta a farsa, impondo que o Estado do RJ cumpra seu dever até o 3° dia útil de cada mês.

5°. ato: mudança na chefia do @STF_oficial. @LFPezão sai da licença, sem traço de quimioterapia. Vai a @MichelTemer, que vai a Carmem Lúcia.

6º. ato: Carmem Lúcia rasga a Constituição, certo, @STF_oficial, e deixa o RJ pagar quando quiser. Moral: no Brasil, o crime compensa.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

COMENTÁRIO SOBRE A CONIVÊNCIA DE REINALDO AZEVEDO COM A CORRUPÇÃO BRASILEIRA

@reinaldoazevedo, agora que virou estrela da @RedeTV, quer se mostrar grande conhecedor da lei, cumpridor da lei e professor de leis.

@reinaldoazevedo tornou-se um comentarista impróprio, incongruente e pretensioso.

@reinaldoazevedo se acha no direito de criticar a Lava-Jato, Deltan Dallagnol, Sérgio Moro, a Polícia Federal. Tudo “em nome da lei”.

Nessa verborragia tendenciosa, @reinaldoazevedo torna-se um protetor de bandidos como Carlos Cachoeira, Renan Calheiros e Demóstenes Torres.

É obrigação nossa e de @reinaldoazevedo saber: leis são criadas por um Congresso, no nosso caso, especialista em legislar em causa própria.

Importante, @reinaldoazevedo, é defender alterações na lei, e mesmo sua infringência – se for para colocar bandidos e ladrões na cadeia.

Se leis não pudessem ser mudadas, @reinaldoazevedo, a ativista Rosa Parks nunca teria dado início à luta anti-racismo em Montgomery, EUA.

É com o apoio de gente como Reinaldo Azevedo que a corrupção grassa sem controle no país, há muitos anos.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

LEGÍTIMO PROTESTO




      PROPOSIÇÃO, SOB JUSTIFICADA REVOLTA, DA PROFESSORA E SERVIDORA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, ISABELLA THOMÉ    
 
     Acho essa caveirinha muito simpática, mas acho que podemos mais.
Convido amigos e colegas servidores, a entrar juntamente comigo, em uma ação civil pública contra o governo do Estado do Rio de Janeiro. Independentemente da Secretaria de Estado a qual pertença ou órgão. Vamos lá? Procura-se um advogado sério, de repente alguém da JUSBRASIL, que se disponha a trabalhar em condições especiais, visto que nem recebemos ainda.
As redes sociais são extremamente importantes, mas de uma certa maneira, nos dão a impressão que fazemos mais do que de fato fazemos.
Tenho 21 anos de Degase, somados a 10 anos de Município, e sinceramente, meus colegas da Educação das duas instâncias, sempre gostaram de reclamar em Conselhos de Classe, corredores e arredores, mas nos momentos de greve, iam aos poucos retornando, retornando, até que...The last ones eram os professores de História, Geografia, Educação Física e Educação Artística. The first ones a voltarem eram os de Ensino Fundamental. Isso, nos 10 anos de Município. Nos 21 de Degase, bem, aí professores são parte de um quadro complexo de funcionários e longe de serem a maioria.
     As cartilhas dos sindicatos são viciadas há muito, todos sabemos disso.
     Os funcionários do Judiciário gozam de privilégios.
     Os professores da rede são desvalorizados pelo governo, assim como os alunos.
     Parte considerável da população quer que seu filho esteja na escola e só.
O ensino é ruim, mas os professores fazem avaliações desta situação até a página 2, quando não terminam no segundo parágrafo.
Este modelo reinvidicatório está falido, pensemos em algo. Pode não ser a ação que sugiro, mas alguma coisa que saia da mesmice secular.


domingo, 8 de novembro de 2015

O ESPAÇO QUE A IMPRENSA DÁ

por Fernando Lomardo

     A imprensa brasileira trabalha, silenciosamente, para reeleger o PT. É a única conclusão possível. É a única explicação viável para o enorme espaço que o partido mais envolvido em corrupção da história da república recebe dos órgãos de imprensa – a mesma imprensa que esse mesmo partido chama de golpista, desde quando o ex-grevista Lula da Silva, na época ocupando o trono de presidente, tentou criar a Agência Nacional de Imprensa (cujo nome remete imediatamente ao Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo de Getúlio), com a função de censurar a imprensa livre e difundir a ideologia do regime – ideologia que, de resto, só deve se aplicar aos eleitores, que vivem de programa social, enquanto o governo e o partido vivem de milhões desviados do dinheiro público.

     Esse grupo político mantém-se no poder com uma considerável ajuda, mesmo com a conivência, de nosso jornalismo político. Uma conivência talvez involuntária, o que a torna mais constrangedora na medida em que vem de profissionais que deviam pautar-se pelo pensamento crítico.

     Há dias atrás, Lula falou em um evento do PT. Como sempre, culpou a elite e a crise internacional (???) pelos problemas do Brasil, e a imprensa pelas investigações em curso, todas inventadas por jornalistas de direita que não gostam de pobres nem de nordestinos, no dizer do ex-grevista. Todas as emissoras de TV foram pródigas em mostrar enormes trechos do pronunciamento do cacique petista. Emissoras de jornalismo da TV paga editaram trechos de 15 a 20 minutos, impingindo a ideologia (???) lulista ao espectador.

     À exceção de alguns colunistas como Fernando Gabeira e Ricardo Noblat (que também reproduz textos de outros inconformados como Mary Zaidan, Elton Simões e Maria Helena Rubinato), ou de um órgão como a revista Veja, a postura da imprensa em relação ao assalto organizado aos cofres do país, aos direitos do cidadão e à VERDADE, à pura e simples verdade, é de uma fleuma irritante. Uma imprensa blasé que se comporta de maneira casualmente neutra, como se todo o banditismo que domina a política nacional pudesse ser “analisado”, decomposto friamente, com olhares de um cientista pretensioso que examina uma água-viva de outro planeta. Parece que a imprensa não tem nada a ver com isso. Parece que o roubo institucional não a alcança, não a altera, não a prejudica. Escudada no falacioso argumento da imparcialidade, a grande imprensa se cala e nos impinge 15 minutos de Lula dizendo o que bem entender, sem que ninguém esboce reação.

     Nunca vi darem esse espaço a outro partido. Nunca vi nenhuma emissora repetir 10, 15, 20 minutos de um encontro, evento, reunião, seja lá o que for, de qualquer outro partido da nação, da mesma maneira como dão espaço ao PT. Parece que Inácio ainda exerce inelutável fascínio sobre os jornalistas brasileiros, que parecem hipnotizados quando se encontram com o “estadista planetário”, segundo o título até hoje inexplicável do Le Monde. Tampouco vejo qualquer órgão da imprensa contestar com determinação os abusos, calúnias e agressões praticados por esse falso migrante. Ele fala o que quer e ninguém contesta. Nenhum jornalista cobra dele: “Prove o que está dizendo”. Só se exige provas da Polícia Federal.

     Em entrevistas recentes, constatamos mais uma vez o assoalho de ovos que parece se alastrar diante da imprensa quando se trata do PT e de seu governo. Miriam Leitão entrevista o ministro José Eduardo Cardozo, Kennedy Alencar entrevista Lula. Em ambos os casos as perguntas são cautelosas, tímidas. Comportadas. Uma postura longe de qualquer combatividade, atitude tão necessária em um momento em que o país agoniza e os responsáveis, cavalgando a hipocrisia, respondem como o editor-fake da extinta revista MAD: “Quem, eu me preocupar”?

     A entrevista de Kennedy Alencar com Lula é de fato exemplar. A começar pelo cenário, um típico painel de fundo de campanha eleitoral: fotos gigantes de Lula em diversas épocas, bradando, sorrindo, diante de uma multidão (quando Kennedy entrevistou Fernando Henrique, em outubro deste ano, o cenário era apenas o mobiliário da sala, sem fotos, sem grandiloquência).

     Cínico, Lula, que sempre desqualificou as investigações do Mensalão e da Lava-Jato, diz que foi nos 12 anos do PT que as instituições se fortaleceram. Que isso não acontecia há 15 anos, evidentemente referindo-se ao governo FHC. Kennedy assentiu. Não lembrou a Lula que, “a quinze anos atrás”, o único pseudo-escândalo que atingiu o governo tucano foi a desmascarada Operação Cayman – uma farsa inventada pelo PT e rapidamente anulada pela Polícia Federal, que comprovou serem falsos todos os documentos. Não lembrou a Lula que a tal “pasta cor-de-rosa, que nunca apareceu”, não apareceu simplesmente porque nunca existiu, como provaram as investigações. Não relembrou ao entrevistado que a corrupção mais devastadora da história do país começou com o Mensalão, no governo Lula, e se agigantou no Petrolão, que envolve tanto o governo do ex-sindicalista quanto o de sua criatura Dilma Roussef. As referências de Kennedy a estes dois escândalos foram breves e superficiais. Lula tentou controlar a imprensa e o STF, vive tentando controlar o Ministério Público e se pudesse, botaria todos os oposicionistas em cana, como bom castrista. Mas afirma que seu governo investigou alguma coisa, e Kennedy assente calado.

     Sabemos que Lula só fala para platéias compradas. O verdadeiro povo não o engole e não o aceita. Ele mesmo já confessou, manhoso e chorão, que não pode ir a restaurantes ou a lugares públicos. Evita o verdadeiro cidadão. Quem ouve seus discursos são apenas papagaios de pirata alugados a preço de banana e alguns grandes empresários que vêm se dando bem com o petê no poder.  Assim, seu discurso mitomaníaco, não sendo veiculado, ficaria lá, restrito aos íncubos, aos cumpanhêro e cumpanhêra idiotizados que balançam bandeirinhas vermelhas. Ficaria restrito a esse público domado – se não fosse o favor da imprensa. Se não fosse a imprensa brasileira oferecer 40 minutos de palanque. Se não fosse a imprensa brasileira, em sua esmagadora maioria, repetir, em todos os seus horários, áudio e vídeo do indigesto palestrante impedido de frequentar restaurantes.


     O próprio Lula admitiu ao final da entrevista (provavelmente em mais um ato falho de quem desconhece armadilhas da linguagem): “Eu estou fazendo política a partir de hoje”. Com um espaço desse tamanho, até eu faria. Com um espaço de 40 minutos de uma emissora de grande audiência, quem não quer? Essa é a nossa “imprensa golpista”. A continuar assim, o PT não precisará mais desviar dinheiro público para financiar campanhas: a imprensa dará o espaço gratuitamente. E continuará posando de “analista” e “especialista”, enquanto o país afunda irreversivelmente.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

MINISTRO MARCO AURÉLIO MELO NO PROGRAMA RODA VIVA

por Fernando Lomardo

     Desnecessária, quase nula, a entrevista do magistrado Marco Aurélio Melo no programa Roda Viva da TV Cultura, nesta 2ª. feira, 19 de outubro de 2015, às 22 h.

     Bendita língua portuguesa. Eu disse quase nula. O advérbio é providencial na medida em que as posições do ministro, se em absolutamente nada colaboram com o Brasil e com o bem estar da população, ao menos ilustram a posição do magistrado frente aos graves problemas do país, e quiçá sirvam de reflexo para compreender seus pares – porque “tomo meus colegas como a mim mesmo” (sic).

     Momentos de singela pureza enterneceram o espectador. Ao dizer que sabe “conviver com divergências”, o ministro citou o Fla-Flu caseiro, em que ele é Flamengo e a esposa (também juíza), Fluminense. Pareceu-me ver margaridas brotando no estúdio da TV Cultura. De fato, é uma divergência análoga à de forças da ordem pública (como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal do Paraná) lutando contra decisões encomendadas a ministros nomeados por encomenda.

     Não faltaram também momentos de demagogia. Marco Aurélio Melo gosta de falar em nome do povo e dizer que a crise econômica tira o sustento, “o pão da mesa”. Mas recusa-se a ver o emperramento do aparelho jurídico, que envolve morosidade inadmissível da primeira à última instância do Judiciário - e que tal circunstância, em um país que tem milhões (sim, milhões) de processos na justiça, também tira o pão da mesa, pois, na grande maioria desse processos (muitos deles envolvendo precatórios, recurso imoral do Estado cujo objetivo precípuo é o de prejudicar o cidadão), repito, na maioria desses processos o cidadão, dolosamente prejudicado pela iniciativa privada ou pelo poder público, MORRE sem receber a devida reparação, sim, de ordem pecuniária, na maioria dos casos roubada pela iniciativa privada ou pelo poder público. Direitos adquiridos, benefícios oriundos do justo suor, são diuturnamente vilipendiados por governos irresponsáveis e falaciosos, direitos são adiados ad eternum pelo emperramento jurídico de um aparelho obsoleto e prepotente. Nada disso é mencionado pelo magistrado que supõe falar em nome do povo. Da mesma maneira, recusa-se a comentar as falhas de um Código Penal de 1916 e de um Código Civil de 1941, recusa-se a reconhecer que a Defensoria Pùblica é uma falácia e recusa-se a reconhecer o favorecimento à impunidade possibilitado pelos inúmeros recursos de nosso sistema. Compara o Brasil aos Estados Unidos, talvez desconhecendo que a comparação é uma piada. Afinal, se os Estados Unidos têm um número bem maior de serial-killers, por outro lado têm um número infinitamente menor de latrocínios e homicídios culposos, causados por embriaguez no trânsito, por exemplo – e, principalmente, um número vergonhosamente (para o Brasil) menor de homicidas respondendo em liberdade, pelo recurso a fianças ou habeas-corpus.

     Em suma, o magistrado não acrescentou nada que colabore com o andamento proativo da solução dos problemas singulares e possivelmente inéditos que o Brasil vive hoje, aqui fora, longe dos salões e das capas do STF. Além de sua sugestão, que ele mesmo classifica de “utópica”, e que de fato não é mais do que ingênua, de que Dilma, Cunha e Temer renunciem juntos (?!?!?!?!), o magistrado não apresentou um minúsculo rascunho de solução para os problemas do Brasil – vale dizer (antes que alguém me corrija, dizendo que não é função de um juiz do Supremo), nem mesmo para problemas de ordem especificamente jurídica, que são seu objeto de trabalho. Não. O ministro estava preocupado apenas com formalidades judiciosas, como afirmar que Juízes do TRF-4 não são desembargadores. Enfim, preocupado com questões absolutamente irrelevantes para a população brasileira.

     É aqui que o advérbio quase apresenta sua função. A entrevista do ministro do Supremo só não foi completamente nula porque permitiu elucidar alguns pontos da atual conjuntura jurídico-política do país. Permitiu confirmar que o Juiz Federal Sérgio Moro (se compreendermos o sentido inverso das palavras do ministro Marco Aurélio) está definitivamente no caminho certo. Permitiu compreender que Sérgio Moro surpreende, intimida e gera mesmo inveja em outras instâncias do Poder Judiciário. Permitiu entender que, apesar do esforço do ministro Marco Aurélio em defender seus pares, existe mais de um peso e medida para o que ocorre no Supremo.

     O ministro negou veementemente a hipótese de que ministros do Supremo possam retribuir a indicação partidária com favores ao partido. Porém, depois de afirmar que “não se agradece com a capa” (com o incompreensível assentimento de José Nêumanne Pinto, cujas experiência e inteligência já deveriam ter convencido do contrário), ficou sem resposta ao ser interpelado sobre a consulta (irregular, senão ilegal) de Dias Toffoli a Dilma sobre a relatoria de Gilmar Mendes, em processo que corre no TSE.

     Em outro momento, vivas à Freud, cuja presença espiritual o ministro ignorava. Mas “o inconsciente fala”, nos ensina o mestre vienense. Depois de ressaltar, por várias vezes, que “tomo os colegas como a mim mesmo”, (ou seja, sabe que eles têm seriedade idêntica à sua) e que “trabalha pesado” (o que ninguém duvida), o ministro revelou que “não sou locutor de assessor” – ou seja, não fico apenas repetindo o que meus assessores interpretaram para mim. Ocorre que dizer que “não sou locutor de assessor” significa que alguém o é – e como se tratava de comparações com os colegas do STF, esses “locutores” lá estão. Quem serão?


     É, a entrevista foi quase nula.

sábado, 17 de outubro de 2015

PAREM DE DIZER QUE DILMA É HONRADA

Parem de dizer que Dilma é honrada
Fernando Lomardo

     Não são poucos os artigos e editoriais que tenho lido examinando a caótica situação política e moral do país, e a responsabilidade da presidente nesse quadro. Mas uma afirmação recorrente me causa estranheza: a de que Dilma “não enriqueceu pessoalmente”. Atribuem a ela, no máximo, negligência ou incompetência. Nada de intenção na espoliação da Petrobras (que é só o que sabemos, por enquanto; quando estourarem Eletrobras, BNDES e outras, não quero nem ver como vamos dormir). Alguns, como o ex-presidente FHC, fazem questão de afirmar que Dilma é “honrada”, num momento em que as inúmeras mentiras da presidente já se escancaram por todo o planeta e, apesar disso, seu Ministro dos Retalhos não sabe fazer outra coisa além de taxar o contribuinte e tentar cortar mais da Previdência.

     Bem, meu conceito de honra é bem outro. Alguém honrado já teria admitido que mentiu. Alguém honrado já teria compreendido que não é capaz de tocar esse barco e teria pedido o boné. Alguém minimamente honrado não estaria se agarrando ao trono de forma covarde, esperneando desesperado, oferecendo ministérios em troca do próprio pescoço, quando aqueles deveriam ser ocupados por técnicos e especialistas capazes de enfrentar desafios e problemas e encontrar soluções no âmbito da gestão de Estado e não do bolso do contribuinte.

     Dilma está muito longe do que um simples dicionário define como honrado. Com sua empáfia, garantida apenas por cinismo e hipocrisia sem antecedentes, por fidelidade canina à mentira, talvez por mitomania patológica, Dilma disse que “não respeita delator”, porque ela mesma não traiu. Cerveró que o diga. Foi delatado covardemente pela presidente, que afirmou ter assinado a compra de Pasadena mediante relatório do pobre diretor – de resto, outro corrupto – como se ela, presidente do Conselho de Administração, não tivesse a obrigação de ler detalhadamente a porcaria do relatório e identificar ali as falhas, irregularidades, incongruências. Ou seja, Dilma o responsabilizou – em bom português, Dilma culpou o diretor internacional da Petrobras na tentativa de isentar-se da própria culpa. Entregou um colega para tirar o seu da reta. Se isso não é uma delação, digam-me o que é.

     Por favor, jornalistas, “especialistas” e editores, parem de dizer que Dilma é “honrada”. Parem de dizer que Dilma “não enriqueceu pessoalmente”. Como é que vocês sabem? Têm por acaso acesso ao extrato bancário da dona? As contas dela foram devassadas? Seu patrimônio foi levantado? Como podem ter tanta certeza? Por quê essa ansiedade em assegurar a honradez de uma mulher diretamente envolvida na maior operação de desvio de dinheiro público da história política da humanidade?

     Se, do ponto de vista judicial, a dita “presunção da inocência” e as melífluas armadilhas interpretativas sobre fatos “anteriores ao mandato” permitem que a vastidão de evidências contra Dilma permaneça ignorada, do ponto de vista meramente factual o povo já tomou sua decisão. Contra fatos não há argumentos, e os fatos da realidade são diferentes dos fatos jurídicos. Se a justiça (ainda mais essa nossa justiça) continua insistindo na presunção da inocência, a sociedade já protocolou e assinou sua presunção de culpa.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

TÁ PENSANDO QUE EU SOU POLÍTICO?

     TÁ PENSANDO QUE EU SOU POLÍTICO?


     O Palhaço sempre foi visto como o inverso do homem social. Avesso à seriedade e ao compromisso, tem muito de atrapalhado e algo de preguiçoso. Representa o deboche e o escárnio, mas também a pureza e a ingenuidade. Por estes atributos, é sempre vilipendiado por alguém mais esperto; geralmente é enganado, espoliado, lesado, e ainda apanha e leva uns tombos. Tudo de ruim acontece com o Palhaço. Mas ele sempre segue em frente recuperando o bem estar e a alegria, a esperança de dias melhores e a fé na humanidade. Como um desenho animado, o Palhaço nunca se machuca.

     Daí ser o Palhaço o símbolo do homem lesado, por sua ingenuidade. Muitas vezes, por sua burrice. Ao se ver em uma situação de iminente ou rematado prejuízo, o homem comum protesta: “Tá pensando que eu sou palhaço”? Só o palhaço pode ser lesado impunemente. O palhaço pode ser sacaneado à vontade, ele nunca vai reclamar. Mas permanece inalterada sua envergadura moral, sua honestidade, sua solidariedade, sua dedicação ao outro.

     Por outro lado, o Político, ao menos no Brasil, já ultrapassou o âmbito do mero substantivo para se tornar um sinônimo: sinônimo de desonestidade, de dissimulação, de falta de caráter, de covardia. O Político banalizou o furto, a apropriação indébita, o roubo. O homem comum constata: “todo mundo que chega “lá em cima” (metáfora para o poder e a plena liberdade de praticar atos ilícitos) rouba; você não roubaria também”? Pronto. O roubo está banalizado, na preguiçosa e subserviente ótica da população brasileira. Roubar é lícito, desde que seja por um político, pois políticos podem tudo, escondidos em sua capa de legitimidade supostamente garantida pelo voto de um povo que respeita o ladrão institucional.

     Você prefere ser Palhaço ou Político? Não tenho dúvidas de que 90% da população brasileira preferirá o Político. Não trabalha, recebe salários milionários, se aposenta com oito anos, tem tudo de graça (apartamento, carro, terno, passagem de avião, talvez não pague nem pelo palito de dente), pode aumentar o próprio salário (é a única categoria do mundo que pode fazer isso) e, principalmente, pode roubar à vontade. Já o Palhaço não ganha porra nenhuma (a menos que seja do Cirque du Soleil, mas aí já é outro palhaço, fashion-cult-pós-hightech), leva porrada, não se aposenta nunca (vejam só o Carequinha, ou o Arrelia, que trabalharam até o fim da vida) e é, sobretudo, incorruptível.


     Por estes aspectos, não faz sentido que alguém, envolvido inadvertidamente em algum tipo de falcatrua, proteste: “Tá pensando que eu sou Palhaço”? Faz mais sentido que ele diga “Tá pensando que eu sou Político”?, pois este é o seu terreno: o terreno da enganação, do vilipêndio, do “dar uma volta”, “dar um chapéu”, “levar na conversa”, “passar um cheque sem fundos”, é o terreno do Político. Deixa o Palhaço em paz. É atribuição do Político (já que lidam uns com os outros) enrolar e ser enrolado, enganar e ser enganado, mentir e corromper. Sim, eu sei que o Palhaço é aquele que é enganado; e o Político é aquele que engana. Por isso, faz sentido perguntar “Tá pensando que eu sou Palhaço”? Mas proponho essa inversão pela necessidade da circunscrição de territórios. Se a mentira e a enganação são o ofício do Político, deixemo-lo responsável por ele, como agente ativo ou passivo. Se o Palhaço é antes de tudo honesto, deixemo-lo em seu território, longe dos perigos devastadores representados por uma eleição. E a cada vez que você se vir envolvido, direta ou indiretamente, em qualquer situação que caracterize mentira, hipocrisia, enganação, vilania, falta de caráter, falta de coragem, pusilanimidade, encha os pulmões e pergunte com todas as letras “TÁ PENSANDO QUE EU SOU POLÍTICO”?