sábado, 28 de maio de 2016

CONSIDERE-SE TREINADO!

por Fernando Lomardo

      Este é o segundo de uma série de artigos sobre minha experiência como parecerista da Sefic (Secretaria Especial de Fomento e Incentivo à Cultura, órgão do Ministério da Cultura), entre 2009 e 2012. Para quem não leu o anterior, caso tenha interesse o link está abaixo:
http://quatroasas.blogspot.com/2016/05/sabemos-tudo-que-se-passa-nesse-grupo.html


     O Edital de Credenciamento n° 1/2009 foi publicado no Diário Oficial da União em 13 de julho de 2009. Minha inscrição foi registrada sob o número 1269, e aprovada para as áreas de Artes Cênicas, Música e Humanidades, de acordo com publicação no Diário Oficial da União de 02 de dezembro de 2009.



     Poucos dias depois, ainda em dezembro de 2009, recebemos, por e-mail, o Termo de Compromisso, o qual deveria ser impresso, assinado e reenviado, em três vias, através dos Correios.
     Começa aqui a recorrente ausência de comunicação com a Sefic, a qual prejudicou em muito o trabalho, a relação com o Ministério e suas vinculadas, o recebimento de valores devidos, a atualização de leis e instruções normativas e, com tudo isso, a própria credibilidade da iniciativa.
     Os Termos de Compromisso, depois de reenviados pelos pareceristas, levaram meses para retornar com a assinatura do Secretário Especial, senhor Henilton Parente de Menezes – pessoa a quem dedicarei um artigo exclusivo, tal sua importância na sequência de trapalhadas deste processo. Somente em maio de 2010 (mais de cinco meses após terem sido remetidas com a assinatura dos pareceristas) recebi de volta minha cópia. Durante esse período enviei três e-mails à Sefic perguntando sobre o assunto. Nenhum deles recebeu qualquer resposta.



 
     Isso, no entanto, ainda era café pequeno comparado a algumas coisas que já ocorriam e outras que ainda estavam por vir.

O “TREINAMENTO”

     Em 12/03/2010, a Sefic promoveu (ou tentou promover) um treinamento (ou “capacitação”, como eles a chamavam) virtual para os pareceristas (ou peritos) contratados pelo Minc. Note-se que esta capacitação ocorre 100 dias após a publicação da seleção no D.O.U., sem qualquer justificativa para este intervalo de tempo. Na imagem abaixo, o e-mail de convocação para a sala virtual onde se daria o treinamento. Convocação emitida repentinamente, apenas dois dias antes da data, sem qualquer preocupação com possíveis compromissos já assumidos pelos peritos, que até este momento estavam totalmente no escuro em relação a todo o processo.
     Mesmo assim, a maioria do grupo de peritos (em torno de 400 pessoas) organizou seu tempo de modo a estar disponível na hora determinada.



     12 de março de 2010, 13:00. As pessoas começam a tentar entrar na sala virtual.
     Você conseguiu? Nem eu. Nem a grande maioria de nós. Cerca de 350 pessoas simplesmente não conseguiam entrar: os botões virtuais não respondiam. Você podia clicar à vontade na janela de login ou em qualquer outro ícone da tela e nada. Muita gente, inclusive eu, começou a ligar para Brasília (sede da Sefic). Nada. Ninguém atendia. Uma coisa inexplicável. Depois de cerca de uma hora fazendo várias tentativas, desisti. Ficou uma certa sensação de absurdo, uma coisa meio inacreditável. Cheguei a ligar a TV para ver se aparecia alguma notícia. Um incêndio, sei lá eu. Mas o motivo era mais prosaico. Quase infantil.
     A Sefic simplesmente havia contratado uma plataforma com capacidade máxima para 100 pessoas. Como os pareceristas eram em torno de 400, a maioria não conseguiu entrar na sala virtual. Simples assim.
     Houve ainda outro problema: um dos peritos que conseguiu acesso gravou o treinamento. Com o tempo acabei perdendo este arquivo de vídeo, mas ele mostrava que, após uns 15 minutos de vídeo-conferência, a imagem congelou. Só se ouvia o áudio do treinamento. O resultado foi cômico, porque ninguém na Sefic pareceu se preocupar com isso. O “treinamento” continuou, com os instrutores dizendo coisas como “estão vendo este ícone aqui à direita”?, e evidentemente ninguém via nada, com a tela congelada.

     Reproduzo abaixo três das mensagens que recebemos após esse lance de comédia. Na primeira o Secretário, Sr. Henilton Menezes, se desculpa e faz promessas para o futuro. Na segunda, o senhor Lauro Ribeiro, cujo cargo eu nunca soube exatamente qual era, nos enviou “material instrucional” em arquivos pdf. Nós, pareceristas, que a esta altura já tínhamos criado um grupo virtual para troca de informações, começávamos a perceber que teríamos que “nos treinar” sozinhos. E de fato, uma segunda capacitação (se é que a primeira merece este nome) nunca ocorreu.
     A terceira mensagem é a mais estarrecedora. Não sei qual foi a matemática maluca que fez o senhor Ribeiro afirmar que “Hoje, nós temos 100% do corpo de pareceristas treinado”. (!!!) Parece mesmo uma dessas contas do PT, que diz que assentou “milhões de famílias” enquanto o número de supostos sem-terra nunca para de crescer. Enfim, o senhor Ribeiro acaba criando uma solução brilhante que parece saída diretamente da boca da nossa presidenta-mulher: “Quem não recebeu treinamento, considere-se treinado”!

      Precisa dizer mais alguma coisa?

     No próximo artigo, nossas dificuldades para desbravar o sistema Salic.






sábado, 21 de maio de 2016

SABEMOS TUDO QUE SE PASSA NESSE GRUPO



Fernando Lomardo

     Tocou o telefone. Minha mulher atendeu.
     “É pra você”. Atendi.
     “É o senhor Fernando Lomardo”?
     “Pois não”.
   “Aqui é da Fundação Biblioteca Nacional. Eu quero falar com o senhor sobre as declarações que o senhor tem feito no grupo digital de pareceristas”.
     “Quem está falando”?
     “Aqui é da FBN”.
     “O senhor é parecerista”?
     “Não”.
     “Então como o senhor teve acesso aos e-mails de um grupo fechado”?
     “Nós sabemos tudo o que se passa no grupo. Qualquer coisa que for falada sobre a FBN chega aqui. Temos controle total. E não gostamos do que o senhor anda falando no grupo”.

     O diálogo prosseguiu em tom progressivamente ríspido, principalmente da minha parte. Terminamos quando informei ao interlocutor que poderia processá-los criminalmente, a ele e à Fundação Biblioteca Nacional, por invasão de privacidade. Mas estou colocando o carro na frente dos bois.

     O Ministério da Cultura havia aberto, em julho de 2009, inscrições para pareceristas da Sefic (Secretaria Especial de Fomento e Incentivo à Cultura). Os membros selecionados atuariam, através do Salic (Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura, plataforma digital de inscrição e avaliação de projetos culturais), na emissão de pareceres técnicos para projetos culturais que reivindicavam isenção fiscal no âmbito da Lei 8.313/91, popularmente conhecida como Lei Rouanet. Minha inscrição foi aprovada para as áreas de Artes Cênicas, Música e Eventos Literários, o que me levaria a atuar sob coordenação de duas das chamadas Entidades Vinculadas do Ministério da Cultura: a Funarte (Fundação Nacional de Artes) e a FBN (Fundação Biblioteca Nacional).

     Desde o início dos trabalhos nós, os cerca de 400 pareceristas aprovados no processo, criamos um grupo de mensagens eletrônicas na internet, de modo a trocarmos informações e dúvidas, ajudando-nos uns aos outros, tanto nos aspectos técnicos da legislação quanto na utilização da própria plataforma virtual recém-criada, já que o treinamento que nos havia sido garantido pelo edital absolutamente não aconteceu, numa das ocorrências mais tristemente amadorísticas de que já tive a infelicidade de participar.

     Voltarei a este treinamento em artigo posterior. Aqui, estou dando um rápido histórico dos fatos que antecederam o telefonema que abre esse artigo. Como a sucessão de erros praticada pela Sefic e pelas vinculadas, em curto espaço de tempo, superava as expectativas mais pessimistas, muitos de nós começaram a trocar observações sobre essas falhas no grupo digital. Tal grupo, por razões óbvias, era evidentemente fechado – só os pareceristas faziam parte. Era necessária a autorização da moderadora do grupo para novas adesões. Isso visava preservar inclusive o sigilo do qual se recobrem os projetos em avaliação. Era portanto inaceitável que qualquer pessoa que não fizesse parte do grupo tivesse acesso às conversas. Um funcionário da FBN, que não fosse parecerista, não poderia ter acesso às informações ali trocadas. A conclusão era inevitável: alguém do grupo remetera mensagens privadas à FBN.

     A conversa citada acima não teve maiores consequências. Não processei os “invasores” e não voltei a receber qualquer contato ou reclamação dos mesmos. Mas essa foi a primeira demonstração pessoal que tive (e na época não liguei os pontos) de um fato que se tornou cada vez mais evidente e entranhado na administração pública brasileira, e que hoje apresenta sua salgadíssima e danosa conta: o aparelhamento, pelo partido do governo, das instituições públicas, através não só de cabides de empregos, mas de arapongas que vigiam tudo e todos na intenção de preservar a “democracia” – uma democracia bem ao estilo de Millôr Fernandes em sua clássica frase: ‘DEMOCRACIA É QUANDO EU MANDO EM VOCÊ; DITADURA É QUANDO VOCÊ MANDA EM MIM”.

     Fiquei cerca de dois anos como parecerista do MinC. Em todo esse período, não avaliei mais do que uns 20 projetos, até ser colocado na geladeira pelo diretor da Sefic, interpelado diretamente por mim após trabalharmos cinco meses sem receber um centavo dos valores previstos em contrato. Nesses dois anos, presenciei coisas progressivamente estarrecedoras, desde o “treinamento” a que já me referi até a ausência de resposta a pedidos de informação enviados aos responsáveis pelo sistema; desde a espionagem aqui relatada até as diversas falhas no funcionamento da plataforma; desde a ausência de recebimento pecuniário, a que já me referi, até a perplexidade ao constatar que não é absolutamente necessário nenhum conhecimento técnico para ser parecerista de projetos culturais do MinC: simplesmente seu conhecimento técnico não é exigido.


     Todos esses fatos, entre outros, serão relatados, da forma mais detalhada que meu dossiê e minha memória me permitirem, numa série de artigos que publicarei aqui a partir de hoje. Talvez esses textos possam ajudar, minimamente que seja, a formular algumas questões sobre Política Cultural no Brasil, num momento em que a histeria tomou conta de uma classe artística que até agora não tem conseguido demonstrar, em primeiro lugar, o que de fato espera do poder público em termos de Políticas Culturais; e em segundo lugar, principalmente, por quê apoia uma proposta política que, em 13 anos, se pautou exclusivamente pelo privilégio, pela dissimulação e pela mentira.

segunda-feira, 14 de março de 2016

MILHÕES NAS RUAS NO GRANDE DIA

por Fernando Lomardo

     De nada adiantou o mais novo membro do PT, o ministro Marco Aurélio Melo, tentar amedrontar o contribuinte com sua empolada e ridícula declaração de que “temia um cadáver” no 13 de Março. Muito menos a cara de playboyzinho irritado de Lula querendo convocar meia dúzia de desocupados a enfrentar os protestos do Grande Dia. Tampouco as postagens, nas redes sociais, de cinco ou seis onipotentes desinformados, enumerando “porque não vou” – como se eles fizessem alguma diferença. Não adiantou nada. O povo, verdadeiro dono do país, o verdadeiro povo, o cidadão que sustenta o Tesouro Nacional assaltado pelo PT e coligados, o povo riu do tolo ministro, peidou para a cara do Lula, bloqueou os idiotas no facebook e entupiu as ruas com milhões, milhões, milhões de pessoas que exigem o Brasil de volta. Não houve um único, isolado, remoto incidente. Foi uma aula de civismo, de patriotismo, de verdadeiro sentido de nação. O povo mostrou sua força e seu legítimo direito de apear do poder os ladrões que assaltam o país.

     O ministro Nelson Barbosa (um dos cinco ou seis mais inúteis do ministério Dilma, de resto uma fieira de inúteis e incapazes) se encontrou com as facções vermelhinhas do petê. Faz sentido. É preciso verificar quanto dinheiro público pode ser desviado para pagar a militância de aluguel. Mas acho que vai faltar grana: o des-governo esvaziou os cofres públicos e as empresas prostitutas que o apoiavam estão tirando férias num resort gradeado. Essas supostas manifestações programadas pelos perdedores só vão servir para bloquear o trânsito e o direito de ir e vir. Mas pode ser engraçado: meia dúzia de gatos pingados sacudindo bandeirinhas vermelhas em troca de cinquenta reais. A cara do PT.

     O verdadeiro movimento social estava nas ruas ontem, em todo o país. Movimento social, como o próprio nome diz, é uma ação gerada pela SOCIEDADE. A tal da CUT não é um movimento social – é um movimento sindical, o que é muito diferente. UNE, MST e congêneres são facções partidárias, profissionalizadas pelo PT. Vivem de serem pagas para não fazer porra nenhuma – por isso nunca acabam, por mais que o PT diga que “assentou milhões de famílias”. É a balela mais fácil do mundo de desmascarar. Só que a grana está acabando... e a mortadela tá mais cara, com a inflação... é, Stedile... será que você consegue arrumar três pessoas pra levar na sua Hyllux?

     O verdadeiro movimento social estava nas ruas ontem. Qualquer outra constatação é falsa. O PT está morrendo e essa é a morte mais aguardada pelo país, há muitos anos. Dilma está doente outra vez, sua magreza e excesso de maquiagem já o revelam. Lula está às portas da prisão. Se não for preso agora, será em breve. Logo, logo, seus parceiros também o serão: governadores, prefeitos, parlamentares. É uma limpeza lenta, mas inexorável.

     Milhões de brasileiros agradecem. Não só os vivos – os mortos também. Os milhares de mortos por falta de atendimento do SUS agradecem. Os idosos impedidos de se aposentar agradecem. As vítimas da insegurança nas cidades agradecem. Os milhões de crianças sem escola na “Pátria Educadora” agradecem. Os milhões de cidadãos lesados pelas telefônicas e planos de saúde agradecem. As vítimas da dengue agradecem. As mães das crianças com microcefalia agradecem. Os assassinados pela Samarco agradecem. Vai, Dilma. Vai, Lula. Vai, PT. Vai pro inferno e vê se não volta mais.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

VIRIATO CORRÊA E A IGNORÂNCIA DO LULOPETISMO

por Fernando Lomardo

     Sou fã de Viriato Corrêa. Sempre o achei um escritor pouco valorizado nesse nosso Brasil sem memória. Seu livro Cazuza, de 1938, delicioso romance didático injustamente esquecido, foi um dos livros de minha infância, e da de meus filhos, para quem eu fazia questão de ler – e eles adoravam. Além dos personagens cativantes e da força narrativa de Viriato, seu conteúdo social é espantosamente moderno. Quase todas as noções de cidadania e direitos humanos tão em voga hoje em dia estão ali, dramatizadas em histórias emocionantes: a valorização do negro; a importância da Educação; os direitos dos animais; o respeito à Natureza; a horizontalidade dos direitos humanos, entre outros.

     No que toca a Educação, um capítulo em especial era de minha preferência. O personagem adolescente Macário (nada a ver com o homônimo de Álvares de Azevedo, espécie de Fausto brasileiro) não frequenta a escola, na qual seu pai não vê função. A diretora do estabelecimento, personalidade serena e tolerante, insiste que o menino seja matriculado, ao que o pai responde em sua altivez analfabeta: “eu, meu pai, meu avô, nunca aprendemos a ler; meu pai viveu 80 anos; meu avô, 85. Eu já tenho 50; aprender a ler, para quê?” A diretora acredita no valor da Educação: “o ignorante, por mais esperto que seja, nunca faz nada direito”. Em vão.

     Certo dia, um fabricante de sandálias entregou um lote para que Macário as vendesse de porta em porta. E explicou direitinho: “Cada par custa dez; mas, se a freguesa regatear, deixe por menos”. Saiu Macário com as sandálias. Passa em frente à casa da diretora, reunida com a família na varanda, tomando a “fresca” da tarde. A irmã mais nova se interessa pelas sandálias: “Bonitas! Quanto custa o par”? E Macário: “Custam dez, mas se a freguesa regatear, deixo por menos”! Explode a gargalhada na roda. A diretora da escola arremata: “Não adianta. O ignorante, por mais esperto que seja, nunca faz nada direito”.

     Certo episódio do cotidiano político brasileiro é exemplarmente ilustrado por este capítulo. Recentemente Lulinha (filho do “filho do Brasil”), que estava calado até agora, apesar de seu nome ser citado em inúmeros eventos suspeitos, resolveu abrir a boca, e não poderia ser de forma mais desastrosa: ameaçou “mandar tocar fogo no Brasil”, caso “pa-pai” fosse ”pre-preso”. Parece não se dar conta da quantidade de confissões involuntárias que praticou numa frase tão curta.

     Em primeiro lugar, admite e reforça a tática de apelar para a bravata de cunho violento à menor contrariedade, tática (se é que merece esse nome) que caracteriza o PT e todos os que o cercam, a exemplo de Stedile e seu suposto “exército nas ruas”, a exemplo de Vagner da CUT e seu suposto “pegar em armas, entrincheirados”, à semelhança de Marcelo Odebrecht e seu suposto “acabou o Estado”, ao ser preso por seus crimes. É a percepção de que os mecanismos constitucionais estão fora de seu alcance e só resta esbravejar e ameaçar o adversário com paus e pedras. Não passa de bravata, mas é uma atitude sintomática: denota a histeria e o desespero que acometem petistas em geral, ante a ruína dos planos da quadrilha.

     Em segundo lugar, Lulinha admite a possibilidade da prisão do pai – pois quem diria “se meu pai for preso”, caso não estivesse em pânico? E por quê o pânico, se não houvesse ciência da culpa? Afinal de contas, até agora, nem Procuradoria nem Polícia Federal acenaram sequer remotamente com a prisão de Lula – o que inclusive, para alguns comentaristas, caracteriza certo favorecimento. Há no máximo alguns inquéritos em andamento – e, nas reações da população, uns bonequinhos de presidiário. Nada que preocupe “o homem mais honesto do Brasil”, ao contrário do “homem mais bonito do Brasil”, que já está em cana faz tempo. A fala de Lulinha tem cara de confissão.

     Em terceiro lugar, denota a tendência petista à “terceirização”, vale dizer, ao capanguismo, onde ninguém é responsável por nada, foi sempre “o outro” que fez. Genoíno não fez nada, foi Delúbio. Lula não fez nada, foi Dilma. Lulinha não disse que ia “tocar fogo” no Brasil – disse que ia “mandar tocar fogo no Brasil”. Como em antiga paródia do Casseta e Planeta, existe “gente que faz” e “gente que manda fazer”. Esse é o caso do PT – nunca faz nada. Só manda o capanga fazer.

     Em quarto lugar, e talvez mais importante que tudo, escancara o absoluto desprezo, desinteresse e desrespeito do lulopetismo pelo Brasil. Como sempre foi evidente pelo comportamento petista, apesar do seu discurso pelo povo e outras cascatas, o Brasil não importa. Pode pegar fogo. Ou descer ao mar com a lama da Samarco. O Brasil não importa. Só importa o PT. Só importa o butim da pirataria. Só importa meter a mão no doce quando ninguém está olhando e sair correndo enquanto ninguém percebe. O Brasil pode pegar fogo que Lulinha não está nem aí.

     Por fim, a bravata revela ainda um humorismo involuntário: quando defende seu garoto com os argumentos mais estapafúrdios, Lula faz de Lulinha um autêntico “filhinho de papai”, inocente e inalcançável. Ao tomar atitude idêntica, Lulinha faz de Lula um autêntico “papai de filhinho”.
  
     Tudo isso é revelado pela fala do menino que tem “tino para os negócios”.


 Já abordei, em um artigo intitulado “A confissão de Lula” (http://quatroasas.blogspot.com/2015/10/a-confissao-de-lula.html), o quanto o desconhecimento da linguagem, por falta de estudo mesmo, nos faz cair em armadilhas retóricas, pois o cara não se dá conta do que está falando. É o caso mais uma vez. É, de novo, a atualidade de Viriato Corrêa: “o ignorante, por mais esperto que seja, nunca faz nada direito”.

sábado, 26 de dezembro de 2015

SUBSTÂNCIA E CONDIMENTO

       Resistimos. A vida não é nada sem tempero.


       Apesar do PT, amanhã há de ser outro dia.

     2015 foi muito, realmente muito difícil. Pelo menos para quem trabalha. Para as sinecuras, não sei. Os amiguinhos do poder. Os bródi. Os bráun. Os gil.

     Para quem trabalha de fato, foi um ano perdido. O governo jogou o país no esgoto, e está difícil de tirar. Mas já disse Silvio Meira: nada resiste ao trabalho. Muita gente trabalha de verdade, e não usa estrelinha no peito. Usa vergonha na cara.

     E pra falar em cara, basta a compra do dia a dia. Essa sim é cara. A inflação da imprensa, de 10% ao ano, perde da inflação da realidade, de 20 a 30% ao mês. Mas é culpa minha, sim, se eu tenho alfavaca no quintal. Manjerona, pimenta, tomilho, parreira, lavanda. Principalmente lavanda, que cura tudo. Com esses condimentos, até um ovo frito vira um banquete. A vida não é nada sem tempero. Coisa de burguês. De elite branca golpista.


     É assim que vamos virando o jogo. Com substância e com tempero. Com a verdade, que vencerá. Nem o Supremo Teatro Federal vai impedir essa vitória.

     Feliz 2016, pessoal. Abraços, sucesso, saúde, tudo de bom. Grana (que não precisa roubar) pra todo mundo. A verdade vem aí.

     O falso se esgota com o tempo. Vira uma barata morta.

     E em breve, não vai ficar nem a casca.

Fernando Lomardo
Ator, dramaturgo, músico e arte-educador




sábado, 19 de dezembro de 2015

VINTE E UM ANOS NO DEGASE

por Isabella Reinert

Vinte e um anos. Da perplexidade inicial pouco restou.

Ao entrar para o Degase, o contato com os adolescentes infratores foi a confirmação da miséria que há muito nos assola. Que espécie de sociedade produz tanto desamparo? Havia entre os profissionais recém-chegados do concurso uma vontade de realizar um bom trabalho, e em alguns casos, de transformar aquele precário estado de coisas. Os primeiros embates, naturalmente, aconteceram entre os trabalhadores remanescentes das instituições que atuavam por anos com uma cultura consolidada no antigo Código de Menores, e os animados concursados inspirados no Estatuto da Criança e do Adolescente. Como qualquer outro lugar onde há privação de liberdade, o exercício da força e seu abuso são uma constante.

Havia a esperança de que o ECA seria assimilado com o tempo, e naquele momento ele tinha apenas quatro anos. Uma lei muito jovem, que mudava paradigmas, com os desafios de ser implantada, ainda mais em um país onde as leis “pegam” ou não.

Este conflito persiste até hoje, vinte e um anos depois, com algumas mudanças na parte física das unidades, mas quase nada na estrutura do atendimento.

Exatamente agora, dentro do ônibus, indo para um Seminário organizado pelo Degase, vejo pela janela uma ação policial. Estão fortemente armados e conduzem um homem jovem para uma viatura. Inevitável pensar que este tipo de coisa não causa surpresa ou apreensão. Passageiros entram no ônibus, riem ao passar pela roleta e encontrarem um lugar para sentar. É mais um dia igual a tantos. Se as manifestações de violência são frequentes, banalizam-se. Se suportamos até agora, podemos prosseguir, afinal nossa capacidade de acomodação é ilimitada.

Mais viaturas ao longo do caminho, e a possibilidade de algo estar acontecendo inquieta.

A poluição da Baía de Guanabara é extrema, o mau cheiro invade o ar. A corrupção domina as manchetes, e exala o mesmo odor podre. Tudo faz sentido. O que se deduz é terrivelmente coerente.  Os resultados medíocres na recuperação de jovens infratores incomodam aos profissionais que acreditavam em suas ações, não ao Estado que enseja e patrocina a miséria. Os dividendos da pobreza são desejáveis, rendem discursos inflamados, subsídios eternos e um porvir sem cor.

Vinte e um anos. Para mim, tantos. Para nós, tão pouco.

Isabella Reinert Thomé

Dezembro de 2015

Isabella Reinert Thomé é professora, cantora, atriz e perfumista. Concursada pelo Município e pelo Estado do Rio de Janeiro, trabalhahá 21 anos como Professora de Artes Cênicas e de Perfumaria do DEGASE (Departamento Geral de Ações Socioeducativas, antiga FEBEM).

sábado, 12 de dezembro de 2015

UMA ESTRATÉGIA PARA 2018

por Fernando Lomardo

     Sou francamente a favor do impeachment. Como defendi em meu último artigo, que pode ser acessado no link ali embaixo, o impedimento político de Dilma Roussef é a melhor coisa que pode acontecer para o Brasil atualmente. Mas já houve um momento em que eu defendia o sangramento de Dilma até o fim do mandato. A razão para isso é simples: caso Temer herdasse o trono e fizesse um governo pior (e acreditem, isso é possível, pelo simples fato de estarmos no Brasil), Lula seria uma alternativa para 2018. E não é possível imaginar quadro mais catastrófico do que o retorno ao poder do governante mais corrupto e enganador da história desse país. Já se Dilma continuasse com suas cagadas (como vem continuando) por mais três anos, o PT, na sequência, seria varrido do poder, e adeus Lula e toda a corja. Esse era o meu raciocínio, até algumas semanas atrás.

     No entanto, também não é mais possível continuar com essa... pessoa no poder. Gente, pelo amor de Deus. Onde é que nós estamos? A mulher estoca vento, fala em “mulher-sapiens”, homenageia a mandioca – isso só para falar no que é cômico. Se invertermos a máscara para o lado trágico, aí a gargalhada é interrompida pelo silêncio. A mulher quebrou o país, mentiu para Deus e o mundo, distribuiu grana a dar com o pau para um Congresso fisiológico e quer que a gente pague a conta, sem falar na corrupção – na qual só os cegos e surdos podem imaginar a inocência dessa senhora. E agora, para completar, está preocupada apenas com seu pescoço (aliás, como sempre), enquanto o país se debate entre o zika, a microcefalia, a tragédia de Mariana, o roubo em todas as instâncias (agora já acharam também a Hemobrás e a transposição do São Francisco), a violência urbana, o parcelamento de salários, o adiamento de benefícios trabalhistas... o que mais falta?  É necessário primeiro tirar essa figura de lá, rápido, correndo, pra ontem, e depois pensar em como não permitir que Lula se aproxime nem da presidência de seus sindicatos pelegos, muito menos do Poder Executivo.

     Essa última tarefa seria mais fácil se tivéssemos uma oposição. Não temos. Temos manifestações populares, uma população revoltada e enojada, juristas conscientes como Bicudo e Reale e alguns jornalistas e intelectuais com inteligência suficiente para “fazer as conexões”, como disse Gabeira. Oposição política, atuante no Congresso, não temos. O PSDB é uma piada. Com sua Síndrome de Avestruz, até hoje não disse o que está fazendo lá em Brasília. Zezé Macedo, digo, Marina Silva ainda está “pensando” como a Rede vai se posicionar. Diz a sabedoria popular que “de pensar, morreu um”... bom, deixa pra lá. Quanto ao PSOL, só se preocupa com suas bandeiras de nichos ideológicos – e se o governo acenar com uma secretariazinha qualquer (de preferência ligada às “minorias”), tenho certeza que Wyllys e Alencar vão voando pro Planalto. A gente tá ferrado com essa falta de (o)posição (desculpem o concretismo fácil, não resisti).

     Como então evitar A Volta do Molusco (e não é um filme trash)? Será que basta acreditar que até lá a Lava-Jato e a Zelotes já o terão trancafiado? Ou que o simples escancaramento de toda a merda feita pelo PT fará o eleitor derrotá-lo, como já estamos vendo entre seus aliados Venezuela e Argentina? Será simples assim? Será que teremos essa sorte?

     Quem depende da sorte depende igualmente do azar. Não podemos nos dar esse luxo. Basta um quinto governo do PT para o Brasil virar o Haiti. Assim, é necessário encontrar uma estratégia eleitoral que permita a algum candidato desbancar Lula, caso ele volte com força em 2018 (e acreditem, isso é possível, pelo simples fato de estarmos no Brasil). É preciso, para isso, defrontar-se com Lula no terreno que lhe é fértil: o populismo. Pegando o povo pela emocionalidade. Pois o fiel da balança deverá ser, mais uma vez, as chamadas “classes baixas” – que continuam sendo maioria no país, a despeito do PT viver dizendo que acabou com a miséria. É necessário um discurso que se sintonize com essas camadas.

     O candidato com melhores condições de utilizar esse tipo de estratégia de campanha é Aécio Neves. Por quê? Por ser neto de Tancredo Neves.

     Parte do carisma de Lula está ligada à sua trajetória e ascenção. Um operário que chegou ao poder. O retirante que venceu a selva de pedra. “Vejam, sou ignorante como vocês”, sorria ele, sempre desprezando o estudo formal enquanto recolhia títulos de Doutor Honoris Causa concedidos por instituições interessadas nessa aproximação. É com esse cabedal que ele se lançará em 2018. Não terá mais o Bolsa Família para arrebanhar votos, já que o programa está indo para o saco mais de dois anos antes da eleição. Lula terá que voltar a vender a ilusão do “Paz e Amor” que o elegeu em 2002.

     Aécio, que até agora não soube aproveitar um único milímetro cúbico das enormes crateras políticas abertas pela incompetência do PT, também pode montar uma trajetória emocional. É diferente da de Lula, mas igualmente mobiliza o afeto popular: ele é neto do cara que reunificou o país em nome da democracia.

     A tragicidade da história do presidente que praticamente morreu no dia da posse (sim, na verdade a morte ocorreu várias semanas depois, mas ele adoeceu no dia exato – foi como se tivesse morrido ali) é uma das poucas na história política do país com dimensão suficiente para gerar verdadeiro impacto psicológico no eleitor. Só se compara ao suicídio de Getúlio. O cartunista Chico Caruso, em um de seus momentos mais inspirados, desenhou a face de Tancredo como se fosse um balão de gás, voando suave para a eternidade, enquanto uma criança vestida de verde e amarelo corria aos prantos em busca do brinquedo perdido. Uma das charges mais marcantes do jornalismo brasileiro. Era o retrato perfeito de um país sem chão, perplexo diante de um golpe inesperado. Um país nocauteado.

     Sim, tudo isso se deu há 31 anos (serão 34, em 2018) e será necessário recuperar essa história para parte significativa da população jovem que a desconhece – ou que não a viveu na pele, desconhecendo assim seus arrepios. Mas é uma história e tanto. Poucos políticos ao redor do globo tem nas costas uma história como essa. Claro que ela envolve também aspectos pessoais e uma série de pudores. Mas sou capaz de afirmar que Tancredo gostaria de ter sua memória resgatada como arma política. Ainda mais por um familiar seu. É necessário – e é legítimo.

     Lula se diz o “O filho do Brasil”, como quer o filme financiado com dinheiro público que reconstitui “a vida” do ex-operário. Aécio é “O neto de Tancredo”. Não existe filme sobre ele, nem sobre seu avô. Pode ser um bom momento para reescrever essa história – não na ficção, mas na realidade.



     Abaixo, o link do artigo em que defendo o impeachment:

POR QUÊ O IMPEACHMENT É IMPERATIVO:

http://quatroasas.blogspot.com/2015/12/por-que-o-impeachmente-e-imperativo.html